Coluna F3

Lady Snowblood: A vingança por meio da violência e da sexualidade

Uma das inspirações de Kill Bill:

Pode ser que alguns interessados no cinema japonês conheçam o filme Lady Snowblood, longa de 1973 dirigido por Toshiya Fujita e estrelado por Akemi Negishi, pois ele foi uma das inspirações para Kill Bill de Quentin Tarantino, ao menos a primeira parte, o cineasta norte-americano usou como inspiração o plot, algumas cenas e a trilha da produção nipônica. O que muitos talvez não saibam é que a película da terra do sol nascente é uma adaptação de um mangá escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Kazuo Kamimura. O quadrinho foi publicado no Brasil pela editora Conrad entre os anos de 2006 e 2007 em 06 volumes com o nome de Yuki: Vingança na Neve, edição que se encontra fora de catálogo. Mas com republicação, pela editora Panini, programada para o segundo semestre de 2021, em apenas 04 volumes.

Do que se trata?

A trama de Lady Snowblood mostra a bela e solitária assassina título Yuki, neve em japonês, lutando para concretizar o seu objetivo de vida, acertar as contas com os algozes de sua mãe, um destino que foi traçado enquanto a menina ainda estava para nascer, vendo-se forçada a viver num mundo em transição a sua sina para alcançar a redenção. A premissa como dito é baseada em vingança, ao nascer na cadeia, filha de uma condenada à prisão perpétua que morre no parto, Yuki se vê obrigada a lutar contra aqueles que prejudicaram sua mãe e sua família.

Como em Lobo Solitário, em Lady Snowblood, o grande Koike usa como protagonista uma pessoa violenta, uma assassina sensual e sem escrúpulos, ela não se importa com quem morra para que seus objetivos sejam alcançados. A história não é linear começa no meio de uma das suas missões para posteriormente apresentar suas origens. A personagem principal é uma assassina de aluguel que deixa uma trilha de sangue por onde passa. Ela não se vale de um código de honra como os samurais, ela está desconectada com o mundo e seus valores, suas ações servem para alcançar a tão sonhada vingança. Ela não se importa em forçar alguém a estuprar outra pessoa ou matar um homem após prometer que não o faria.

Beleza e poesia:

A história de Lady Snowblood apresenta uma violência poética que mistura sangue, nudez e muita sensualidade. Há uma certa cumplicidade entre a violência e o sexo no mundo de Yuki. Sua beleza natural assim como a leveza de seu nome, contrastam com a sua violência fria e brutal. A época também parece ser desoladora, a história ocorre durante a chamada era Meiji (1867 a 1912), um período em que ocorreu a “ocidentalização” do Japão. Momento em que muitas das tradições feudais deram lugar a uma época mais moderna e menos ligada as suas convenções, o que levou a muitos conflitos históricos, alguns dos questionamentos são mostrados nessa obra.

Como uma vingadora vinda dos céus tal qual uma nevasca, Yuki desce sobre os opressores das massas, sejam eles banqueiros, estrangeiros ou mafiosos, ela não se importa em lutar contra o governo ou os poderosos da época. Por um punhado de Yens a garota usa suas habilidades letais valendo-se de sua beleza, de seu corpo e de qualquer outro método que ache adequado. Tudo de forma acelerada, a ação é desenfreada, há momentos em que a violência é extremante exacerbada e estilizada. A violência sexual é desagradável e até gratuita, Yuki luta muitas vezes em trajes mínimos ou até mesmo sem eles, uma tentativa de desnortear seus agressores com sua estonteante beleza.

Cena da versão live action de Lady Snowblood

Um quadrinho adulto:

Diferentemente de muitos dos mangás publicados hoje em dia,Lady Snowblood é um quadrinho adulto, aqui a protagonista deve sobreviver numa sociedade violenta, um retrato da condição humana num Japão passando por diversas mudanças. Apesar de ser inescrupulosa, violenta e muitas vezes sem coração, ao longo da trama nos apegamos a “heroína” que foi conduzida pelo destino a um rumo cruel. Muitos dos capítulos começam com alguma ação violenta que posteriormente é explicada no decorrer deles. Ela é uma assassina de aluguel, em busca de vingança, mas seus alvos muitas vezes parecem ser mais perigosos e desumanos do que ela.

Narrativa visual X Roteiro:

Apesar de um roteiro inteligente e de um ritmo muito agradável a arte de Lady Snowblood não é tão boa quanto o texto. Kamimura muitas vezes representa seus personagens de forma muito parecida, é difícil em alguns momentos diferenciá-los. Há quadros em que a anatomia parece estranha, ou figuras que deveriam estar se movimentando parecem estáticas. Apesar de não ser um trabalho artístico primoroso, ele é eficiente, conseguimos sentir o ódio nos olhos de Yuki, vemos o peso toda a sua determinação e o desconforto em ser mulher num mundo que não as respeita.

Conclusão:

Assim sendo, Lady Snowblood é uma ode à violência estilizada, com excesso de sangue em meio a muita sexualidade. Um épico belo e brutal que mostra uma sociedade em transição que possui muitos problemas que não serão superados. Koike apresenta um olhar sombrio sobre o mundo, um trabalho revolucionário e corajoso, vendo que a obra foi publicada cerca de cinco décadas atrás. Material que deve ser conhecido por qualquer um que se interesse por mangás de qualidade. Só posso agradecer à Panini por essa republicação e torcer para que outros trabalhos de Koike como Crying Freeman e Samurai Executor sejam também redescobertos.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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