Coluna F3

Kamen Rider: a popularização do Tokusatsu

Sei que já escrevi isso antes, mas, como um apaixonado por quadrinhos que acompanha a indústria há mais de três décadas posso dizer que estou feliz e ao mesmo tempo muito triste com os rumos de nossas publicações. Como os colecionadores estão cada vez mais escassos as editoras estão preocupadas em trazer material para agradar um público, mais especializado e conhecedor de HQs, que como eu é fiel. Nunca foram editadas tantas obras tão diversificadas e importantes. Fico agradecido por poder acompanhar muita coisa que achava que não sairia por aqui, como Kamen Rider, mas me entristece ver que muito do que gostaria de ler não posso acompanhar pelo excesso de publicações e dos elevados preços.

Observando os pontos positivos é impossível não ficar, ao menos para mim, muito empolgado com a enxurrada de bons mangás que aportarão em nosso país ainda nesse ano, são muitos relançamentos e muita coisa inédita chegando. Entre os autores que estão deixando sua marca em nosso território está o grande Shotaro Ishinomori, um dos assistentes do grande Osamu Tezuka, esse um dos pioneiros na criação do chamado mangá moderno, tão importante que ganhou a alcunha, no Japão, de deus do Mangá.

Shotaro ainda era inédito no Brasil, todavia no começo do ano a editora Pipoca e Nanquim publicou a biografia que fez do pintor Hokusai.

Ishinomori foi muito mais do que apenas um dos pupilos de Tezuka, assim como seu tutor ele é um dos principais pilares da indústria nipônica, foi um dos primeiros a se valer de outras mídias para aumentar a popularidade de suas obras. Ele levou muito dos seus personagens e conceitos criados nos mangás para as telas através de animes e até de live actions.

Nesse segundo caso criou em 1971 a série Kamen Rider, que ganhou a produção da Toei Company, um estúdio que produz os mais variados filmes, animes e seriados, especialmente os conhecidos como tokusatsu, a palavra é uma derivação de “tokushu kouka satsue” ou “filme de efeitos especiais” numa tradução livre. Simplificando, tokusatsu são filmes ou seriados com temática que abordam histórias de terror, aventura, ficção científica ou super-heróis.

Esse conceito, tokusatsu, acabou se tornando muito popular com muitas franquias sendo levadas para o exterior, até hoje nomes como Jaspion, Changeman e o próprio Kamen Rider são populares aqui no país. As primeiras séries de Kamen Rider chegaram ao Brasil pela extinta rede de TV Manchete, sendo posteriormente exibidas em outros canais. Kamen Rider se mostrou tão popular que continua sendo produzida até hoje, teve um hiato de após o falecimento do autor, mas acabou voltando.

O herói, como dito, apareceu primeiramente em mangá, que felizmente está sendo publicado no nosso país pela editora New Pop.

Kamen Rider surgiu para substituir o personagem chamado Skull Man, conforme a sua história foi sendo escrita, os executivos solicitaram tantas mudanças que o autor resolveu criar um herói novo. Skull Man possui muitas semelhanças visuais, mas sua conduta era muito pesada, mais violenta, sem contar que ele era o vilão da história. Kamen Rider por sua vez é um jovem universitário conhecido como Takeshi Hongo, que acaba sendo o alvo de uma organização criminosa conhecida como Shocker.

Esse grupo de malfeitores sequestra nosso protagonista, fazendo várias experiências que o modificaram fisicamente o transformando num ciborgue. Antes que finalizassem a operação o herói foge, jurando lutar contra a Shocker, procurando justiça para ele e a todos os que foram prejudicados pelos vilões.

A história é bastante simples, provavelmente é nesse ponto que encontramos seu charme pois após um acidente o jovem Takeshi Hongo, um brilhante, quiçá o melhor, estudante de biologia, que também possui muita capacidade atlética, além de ser perito com motocicletas, acorda numa mesa de operações acorrentado, sendo preparado para um procedimento de lavagem cerebral que é interrompido por um sabotador que o ajuda a fugir. A fuga é facilitada pelo aumento da força e agilidade adquirida pelo rapaz, ele é auxiliado pelo doutor Midorikawa que também estava cativo pelo vilanesco grupo conhecido como Shocker.

É interessante observar que há uma espécie de crítica social nesse ponto, o autor mostrasse muito preocupado com os rumos da sociedade, visto que havia um movimento que visava um Japão mais independente, com maior poder bélico. Os vilões da organização pregavam a procura de pessoas com maior vigor físico e cerebral para dominar os inferiores do mundo que existiam apenas para servi-los.

Há ainda uma preocupação com a poluição, mesmo tendo cerca de 50 anos a obra já se preocupa com os impactos que a ação do homem teria sobre o meio ambiente e na qualidade de vida das pessoas. Há um flerte com as manifestações sociais e apoio às greves, visto que os ambientalistas, os sindicatos e universitários são alvos prediletos dos bandidos. Outro aspecto divertido da obra é o visual dos personagens, seus monstros são assustadores, inescrupulosos e possuem uma temática animalesca.

Temos um homem-morcego que parece uma espécie de vampiro, um homem misturado com aranha e até uma serpente com braços e pernas.

A trama permite que Ishinomori insira muita ação, seu desenho é fantástico, um pouco datado lembrando o estilo da época, mas o seu domínio sobre o claro e escuro é fantástico. As cenas que desenha com o herói usando sua moto são de encher os olhos. Suas composições não são fixas, há muita movimentação e seus enquadramentos são pensados para dar mais dinamismo e fluidez às cenas.

Ele se vale de muitas linhas de movimento, mostrando todos os detalhes da ação, seja alguém voando, caindo ou mesmo a troca de socos. A moto do herói é retratada com muito minuciosidade o que a torna um personagem de peso, sua relevância só fica atrás do próprio protagonista. A fluidez das páginas parece ser apresentada como num storyboard, são fáceis de serem lidas e se preocupam com a nitidez e com a movimentação da “câmera”.

Kamen Rider é um marco dos quadrinhos japoneses, ela serviu como base para um seriado que ainda é extremamente famoso, que popularizou o conceito no Japão e no mundo. A New Pop publicará o material original em três edições, duas já foram lançadas, há muita coisa que gostaria de falar da segunda edição, mas tentei evitar ao máximo dar spoilers. A New Pop está de parabéns, sua edição é fantástica e faz jus ao material, só posso agradecer ao pessoal da editora por nos dar oportunidade de conhecer essa incrível obra. Esse mangá faz parte do selo Xogum da editora, que busca trazer mangás importantes e clássicos num formato agradável e com um preço mais acessível.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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