Quando éramos reis

Jon Sable Freelance, o primeio caçador urbano de Mike Grell

Uma desculpa pra desenhar seus temas preferidos:

Quando inicia Jon Sable Freelance, Mike Grell já vinha de uma experiência de sucesso escrevendo e desenhando, Warlord para a DC e para a Pacific, Starslayer. “Freelance” não porque Jon Sable tenha dificuldade com contratos fixos, mas porque é um matador de aluguel. Sable ajudou a banalizar, na década de 1980, a violência nas páginas de quadrinhos; o que American Flagg tinha de sexo, Jon Sable tem de violência.

Jon Sable passa a séria impressão de ser mais um pretexto para Mike Grell encher as páginas desenhando o que ele dominava: animais selvagens, armas brancas e de fogo, figurinos militares ou para andar no mato, e designs de página dinâmicos: em uma vasta geração de herdeiros de Neal Adams incluindo Frank Miller, John Byrne, Dave Sim e Bill Sienkiewicz, Grell parece se esforçar para pegar um lugar no pódio, pela maneira como abusa das perspectivas, dedos das mãos e closes em três quartos.

Limitado, porém interessante:

Se você tem bravura e paciência para passar por cima dos maneirismos gráficos de Grell, seu gosto excessivo por esgares, uma uniformidade de gente esbelta (há raros gordos no mundo de Jon Sable) e se convenientemente ignorar a pouquíssima verossimilhança de um personagem que foi, pela ordem, atleta olímpico, soldado no Vietnã, guia turístico e de caça selvagem na Rodésia, antes de se tornar um mercenário que leva vida dupla em Nova Iorque como… autor de livros infantis sobre gnomos que vivem no Central Park, pode até gostar do que vai ler.

Mike Grell colocava nas histórias conflitos de seu tempo: fugitivos políticos da União Soviética tentando ultrapassar o muro de Berlim, um atentado terrorista nas Olimpíadas de Los Angeles. Já que o personagem era um amálgama meio sem sentido, Grell aproveita isso para encaixar os mais diferentes gêneros nas tramas: terrorismo internacional, busca por tesouros arqueológicos à la Indiana Jones, uma sofisticada ladra de joias, violência urbana, aventura militar na selva. Em todas, Sable mata, apanha muito e acaba se envolvendo com mulheres glamourosas, que se atiram a ele como Bond-girls, a despeito da sua ausência de charme e sedução.

Também é possível apreciar a Jon Sable apenas pelo desenvolvimento dos personagens coadjuvantes, para além da ação brutal, sobretudo o envolvimento com a ilustradora Myke Blackmon e a editora Eden, deslumbrantemente desenhadas. Mas não se engane: é preciso desligar um bocado seu senso crítico para aproveitar a leitura de Jon Sable Freelance.

Ah, se o nome não lhe soa estranho, sim, houve um curto seriado televisivo na década de 80 baseado neste personagem. Ele foi exibido em 90 pela Rede Globo sob a alcunha de “O Vinhador”. Confere aí uma foto e vê se lembra.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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