Coluna F3

Horácio: O grande

Maurício de Souza e Pipoca e Nanquim juntos:

A editora Pipoca & Nanquim foi responsável em fazer um resgate histórico de um de nossos maiores mestres, Jayme Cortez, não satisfeitos farão o mesmo com outra grande lenda, o gigante Flávio Colin. Todavia antes dessa publicação começaram outro projeto fantástico que vai reapresentar todas as tiras que o nosso maior quadrinista, Maurício de Sousa, realizou com o seu personagem predileto, Horácio. Acredito ser uma merecida homenagem a esse gênio, muitos podem discordar e não me importo, considero a obra do Maurício um dos maiores, quiçá o maior, marcos na produção de gibis no Brasil.

O pequeno tiranossauro vegetariano, que possui alma de poeta e um espírito de filósofo, surgiu nas tiras do Piteco, começando como um coadjuvante. Logo, assumiu a posição de protagonista ao conquistar primeiramente o coração de seu criador e posteriormente dos leitores. Com sua alma gentil, ele busca ser amigo de todos que conhece em meio a sua jornada em busca de sua família. Ele deseja fazer parte de um núcleo familiar, acredita que foi abandonado por sua mãe, sonha em reencontrá-la. Essa procura o coloca em enrascadas como dividir o ninho com pterodátilos e ter de vê-los voando e se contentando em permanecer só, a viver com uma manada de mamutes, enfrentar os mais diferentes predadores, a conhecer alienígenas, viajantes do tempo e até a encontrar um certo Noé e sua arca.

Uma simpatia de dinossaurinho:

Além de sua personalidade carinhosa e muito simpática, o famoso dinossauro ainda possui hábitos alimentares diferente dos demais de sua espécie, ao invés de um belo bife ele prefere um saboroso e suculento maço de alface, isso mesmo, a sua bondade é tamanha que ele nem mesmo é carnívoro. Suas tiras foram publicadas por cerca de trinta anos, as histórias começaram nas páginas da Folhinha, suplemento infantojuvenil da Folha de São Paulo, com o tempo passaram a serem publicadas no Estadinho, do jornal o Estado de São Paulo.

É sem dúvida um merecido resgate histórico, as tiras estão sendo publicadas em ordem cronológica, mostrando não apenas o amadurecimento do traço do autor, mas a evolução do personagem, muitos de seus amigos aparecem pela primeira vez logo nesse primeiro volume, em muitos casos bem diferentes da versão que temos hoje em dia. Foram cerca de trinta anos de histórias, entre os anos de 1963 e 1992, que são redescobertas cerca de três décadas após a sua publicação inicial. Foi um enorme exercício de paciência, pois há muita coisa que não estava disponível, foram necessários buscar as páginas entre o acervo da MSP, da Folha de São Paulo e do Estadão, um hercúleo trabalho de pesquisa.

O projeto não poderia estar em mãos mais cuidadosas. Ele surgiu da cabeça de Sidney Gusman, para quem não sabe ele é além de um dos melhores jornalistas especializados na nona arte, estando entre as pessoas que conduzem o site Universo HQ e o podcast Confins do Universo, como se isso não fosse o bastante é também o editor responsável por ajudar a difundir e diversificar a marca Maurício de Sousa, permitindo através do selo Graphic MSP, sempre com o aval do mestre, que grandes autores nacionais possam contar suas próprias histórias da turminha, desde que respeitados os valores e temáticas do Maurício. Assim, era de se imaginar, com uma parceria entre pessoas tão apaixonadas e gabaritadas, que a coleção teria o maior zelo e a melhor qualidade editorial, visto que, além do Sidão, como o editor é carinhosamente conhecido no meio, o pessoal do P&N também possui muito carinho pelo mestre.

Por muito tempo apenas Maurício de Sousa pode colocar as mãos em Horácio, o personagem é o xodó do autor, através dessas histórias vemos o seu amadurecimento como artista, visto que o seu traço foi se modificando com o tempo, bem como a sua posição de observador do mundo. No início o nosso simpático dinossauro busca por sua família, esse é o desejo que o motiva, contudo, Maurício vai explorando os seus sentimentos e até sua compreensão sobre suas emoções. Nosso amiguinho começa a observar os relacionamentos, passando a perceber a violência, a ganância, a cobiça, o amor e até o medo, aos poucos ele vai fazendo uma gigantesca viagem interna, ele muitas vezes se questiona. É amoroso, respeitador, prestativo e sem nenhum tipo de preconceito, alguém meio inocente, ingênuo e muito curioso, talvez essa seja a razão dele ser tão cativante, o fato de estar sempre pronto para evoluir.

O resgate histórico:

  Outro destaque dessa incrível edição é o fato desse resgate histórico ter passado pelas mãos do designer do estúdio MSP, Adriano Nunes, que além de escanear as artes em preto e branco, ficou também encarregado em recolorizar as páginas, com uma paleta de cor mais atual e de aplicar novas letras, com uma fonte criada usando como base a letra manual do próprio Maurício. Há a preocupação em deixar tudo o mais próximo possível do original, respeitando até as quebras de linhas do texto que o autor realizou ao produzir as tiras. Toda essa aventura de buscar por originais, colocá-los em ordem cronológica, verificar quais artes estavam faltando, além de colocar notas explicativas em muitas das páginas para contextualizar o momento histórico, tudo muito bem pormenorizado num texto do grande Sidão, algo que ele faz com muita maestria, uma melhor grafia e um estilo infinitamente superior ao meu.

Eu infelizmente tenho que assumir que sou meio “puxa-saco” dos editores do Pipoca & Nanquim, claramente ela é a minha editora predileta, gosto de muita coisa que produzem, claro que não gosto de tudo, mas a maioria dos trabalhos batem muito com meu gosto pessoal. Eu como muitos leitores aprendi a gostar de quadrinhos com as revistas da turminha, confesso que essa parceria MSP e P&N me deixou muito empolgado, mas ao pegar o material – com muita nota explicativa, com farto material extra e textos tanto do grande criador e do gigante Sidão – fiquei com a sensação de que tinha em mãos o maior petardo da editora. Esta é de longe a coleção que mais desejo completar, visto que serão quatro volumes, contendo quase trezentas páginas de quadrinhos, muitos extras e na quarta edição uma caixa especial para guardar todos os volumes. É simplesmente imperdível e obrigatório de se ter na coleção.    

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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