Coluna F3

Hokusai: a vida de um gênio pelas mãos do rei dos mangás

Shotaro Ishinomori, nome artístico de Shotaro Onodera, é tido como um dos principais pilares para a construção da indústria dos mangás no Japão, é referenciado como sendo o segundo maior mangaká de todos os tempos, tanto que recebeu a alcunha de o “Rei dos Mangás”, ficando atrás apenas de seu mentor Osamu Tezuka, também conhecido como o “Deus dos Mangás”. Seu trabalho foi influente para a mídia impressa assim como para a animação e os seriados do tipo tokusatsu. Vale lembrar que seus mangás pouco ou nada eram conhecidos em nosso país, uma gigantesca lacuna que está sendo preenchida atualmente tanto pela editora New Pop como pela Pipoca & Nanquim.

Antes de fazer uma análise do mangá Hokusai gostaria de detalhar um pouco mais sobre a carreira desse grande criador. Seu início foi ao lado do grande Tezuka, foi seu assistente, inicialmente desejava ser romancista, todavia acabou sendo incentivado por Osamu a criar mangás, possuía um estilo próprio que se valia de muita referência dos cinemas e da literatura, seu amor e interesse pelo mundo da ficção científica era muito forte. Nos anos 50, acabou adaptando muitas obras literárias. Na década seguinte, mais precisamente em 1964, começou a trabalhar com Cyborg 009, uma de suas principais criações, que publicou até a sua morte em 1998, tendo uma conclusão póstuma baseada em seus manuscritos.

Nos anos 70 cria “Kamen Rider”, o personagem serviu de base para a série live-action no estilo tokusatsu, seriados em que temos alguém com a habilidade de se tornar um guerreiro mascarado para lutar contra as forças malignas que querem conquistar ou destruir a terra, Jaspion talvez seja um dos exemplos mais famosos no Brasil, para se ter uma ideia a série de Kamen Raider se mostrou tão popular que continua sendo produzida até hoje, teve um hiato de após o falecimento do autor, mas acabou voltando. O herói apareceu primeiramente em mangá, que felizmente está sendo publicado em nosso país pela editora New Pop.

Ishinomori é um dos mais importantes criadores de quadrinhos do mundo, ele produzia cerca de 500 páginas por mês, mantendo-se ativo por mais de quatro décadas, tendo influenciado autores como: Go Nagai, que foi seu assistente; Rumiko Takahashi, criadora de Ranma ½ e Inuyasha e; Katsuhiro Otomo, de Akira. Em 2001, foi erguido um museu em sua homenagem o “Ishinomori Manga Museum” na cidade de Ishinomaki, província de Miyagi, sua terra natal. Acredita-se que ele tenha sido o autor com o maior número de obras publicadas, calcula-se que em vida foram cerca de 770 títulos diferentes, algo em torno de 500 volumes, aproximadamente 128.000 páginas publicadas.

 O mangá Hokusai aborda a vida desse que é tido como o mais importante e influente pintor japonês, Katsushika Hokusai (1740-1849), que foi responsável pela famosa obra a Grande Onda de Kanagawa de 1831, além de incontáveis ilustrações e pinturas. A trama se inicia com o artista dando suas últimas pinceladas no prólogo rindo de seu passado pronto para morrer. O primeiro capítulo se inicia com ele adotando o nome de Hokusai ao chegar à idade de 42 anos, uma das idades críticas para os homens, conhecida como “Taiyaku” ou “Hon`yaku” (mais perigosa), cuja leitura em japonês dos números 4 e 2 (shi e ni), juntos formam a palavra morte, ou seja, uma época perigosa aos homens, um momento de virada.

A obra não se preocupa em contar uma história linear, mostra diferentes momentos de carreira de Hokusai, além do “renascimento”, vai pontuando os eventos mais importantes do ponto de vista artístico e não do particular. A sua vida pessoal é retratada, mas o interesse de Ishinomori é observar o amadurecimento artístico, as dúvidas e o descobrimento de novas técnicas, o mangaká não está interessado em uma narrativa tradicional ou acadêmica. Ishinomori não trabalha com uma biografia tradicional pois muitos fatos de vida do pintor não são certos, estando sujeitos a muita discussão acadêmica, ou seja, muita especulação.

Mesmo sem ser linear há uma progressão de fatos que ajuda o leitor a se importar com esse gênio que é falível, sempre insatisfeito, mulherengo, aproveitador e que possui muitos problemas financeiros. Fatos que o obrigam a sempre se reinventar, daí de tempos em tempos a necessidade de trocar de nome, não há uma glamourização da vida do artista e sim uma tentativa de retratar a realidade do pintor, ele é mostrado como alguém que não mede esforços para produzir mais e mais obras. Sem sobra de dúvida há muita licença poética, mas que serve para construir uma pessoa palpável, alguém sempre insatisfeito que tenta alcançar um impossível patamar de qualidade.    

A arte não é igual aos mangás publicados hoje em dia, o que não é um problema, muito pelo contrário considero a arte muito eficiente, ela mostra as diferentes facetas de Hokusai num estilo mais limpo e caricato, de fácil assimilação para aqueles que não são leitores habituais de mangás. Há em muitos momentos o encontro da arte do próprio Hokusai com a de Ishinomori, criando uma narrativa única e respeitosa, como uma curadoria feita por um museu. Hokusai é retratado como alguém muito emocional, muito do seu trabalho dependia de como estava seu estado de espírito. Ishimori mostra de forma eficiente e convincente as paisagens e as emoções do pintor, tudo está lá, o uso de várias artes originais serve para dar mais profundidade a trama.   

Hokusai é mais um acerto da editora Pipoca e Nanquim, é definitivamente um petardo.  O mangá foi publicado com muito primor, com uma bela sobrecapa que mostra a Grande Onda de Kanagawa, a sua pintura mais famosa, no mesmo formato que as demais publicações em mangá da editora. É uma obra que pode ser lida por qualquer pessoa, seja alguém apaixonado ou não pelos mangás, como dito anteriormente mais um petardo indispensável lançada pela editora Pipoca e Nanquim.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo