Coluna F3

Hell`s Paradise: Quando o paraíso se encontra depois do inferno

Intro:

É humanamente impossível acompanhar todos os mangás que são lançados mensalmente no país, seja nas bancas, nas prateleiras das livrarias, ou nas “vitrines” das lojas virtuais. Há uma enormidade de lançamentos para a nossa escolha, como sou colecionador há algum tempo sempre fico feliz e triste, adoro ter muita coisa para escolher e triste por não conseguir acompanhar tudo. Esse sentimento de alegria é o que me impulsiona a adquirir materiais desconhecidos, algumas vezes damos azar, na maioria das vezes sendo honesto, todavia há momentos que acertamos, como no caso de Hell´s Paradise.

Ao avistar a capa do mangá Hell´s Paradise, com seu tom meio roxo (ou seria meio róseo), misturado com tonalidades de azul e amarelo além dos desenhos monocromáticos de uma espécie de samurai e de alguém com cabelos compridos, fiquei intrigado. O nome que seria algo como inferno paradisíaco, numa tradução livre, os dois personagens andróginos que ilustram a capa e a contracapa, tão exóticos quanto o título, o guerreiro parecia ser mulher e o “protagonista” parecia ser homem, seria necessário a leitura para sanar essa dúvida.

Uma grata surpresa:

Esse, ao menos até o momento, foi uma grata surpresa, a dicotomia do título também é usada na série. O mangá é escrito e ilustrado por Yuji Kaku, sendo serializada digitalmente pela Shonen Jump + a partir de 2018, o material foi posteriormente compilado em Tankōbon, ou volumes. A primeira coisa que me chamou a atenção é que assim como o protagonista de Chainsaw man, temos como “ator” principal um personagem que está mais interessado em alcançar uma espécie de crescimento pessoal do que um objetivo de ser o melhor ou maior em algo.

A trama é bastante simples um ninja chamado Gabimaru, o vazio, acaba sendo preso e sentenciado à morte. Todavia, sua vida entre os guerreiros das sombras tornaram-no quase invencível, tentam de tudo para ceifar sua vida. Usam espadas para cortar sua cabeça, amarram-no numa fogueira para queimá-lo vivo e até desmembrá-lo com animais, nada surte efeito. O mais interessante é ver sua expressão de tédio estampado em seu rosto conforme seus carrascos falham. Tudo acompanhado por uma samurai, sim é uma personagem feminina chamada Yamada Aseamon Sagiri, que também é sua executora. Única capaz de cumprir a sentença que tantos falharam, antes de matá-lo, ao ver sua humanidade, ela faz uma proposta.

Com a verdadeira possibilidade da morte surgindo Gabimaru acaba aceitando a oferta de ser conduzido até a presença do Shogun Tokugawa Nariyoshi que deseja encontrar o “elixir da Imortalidade”, tendo enviado algumas expedições, sem sucesso, até a ilha em que supostamente se encontra, sim a Hell`s Paradise do título. Assim, o imperador convoca os mais fortes e perigosos condenados do Japão para que o encontrem. Como de praxe há uma seleção vencida pelos mais estranhos e inescrupulosos. Cada um deles será conduzido ao lado de um executor da família Yamada Asaeon, que será responsável para que o bandido não fuja.

Duplo sentido:

O mangá gosta muito de trabalhar com o duplo sentido, pois o protagonista é um dos maiores lutadores do Japão durante o período conhecido como Edo, compreendido entre os anos de 1603 até 1868. Ele é poderoso, mortal e quase invencível, mas não possui nenhum prazer em matar, muito pelo contrário acha desnecessário e desestimulante. Seu maior desejo e única pulsão é se reencontrar com sua esposa. Ele mostra pouca emoção durante as lutas, mas possui excesso de amor por sua mulher. Ademais, ele tem uma estatura muito baixa, sendo tido pequeno para um homem daquela época, além de ter uma aparência inofensiva.

Outro estranhamento está no personagem Yamada, apesar de ser uma eximia lutadora, o fato de ser uma mulher faz com que ela seja menosprezada pelos demais de sua família, além disso ela duvida de seu próprio espírito, a sua técnica não é tão refinada pois ela possui muito medo e insegurança, ela fraqueja ao ter de matar. A sua expressão facial é como de Gambiru, também vazia, ela não expressa nenhum sentimento, sendo quase robótica, seu semblante só muda ao ver protagonista usar suas técnicas assassinas com um descaso que a espanta.

Personagens adultos:

Outro detalhe que gosto muito é que esses personagens são adultos, não os tradicionais colegiais que são esfomeados, burros, cheios de habilidades e capazes de nocautear adultos. Aqui temos pessoas “quase” normais, Gambiru está passando por uma enorme depressão, só aceita seu papel no mundo por causa de sua esposa, a única razão de felicidade e o que o motiva, sua mulher também é um personagem atípico, se sente burra e estranha, mas que de alguma forma consegue ser “viva” o suficiente para motivar nosso protagonista.

A dupla principal Yamada e Gambiru parecem criar um elo emocional, até mesmo uma parceria, claro que há brigas, suas personalidades são muito diferentes. O mais interessante é que não há uma sexualização desnecessária ou algum tipo de paixão platônica, há uma cumplicidade, pois eles possuem aspectos emocionais e questões pessoais que se complementam, creio que isso deva ser mais explorado nos próximos volumes.

A arte é muito boa!

Finalmente devo ressaltar que a arte é muito boa, no começo não se preocupa tanto com os detalhes, sendo um pouco genérica, mas conforme a história vai progredindo, o artista começa a dar mais atenção a eles. Se preocupa em dar diferentes personalidades visuais a seus personagens, também passa a se dedicar mais aos objetos. A vegetação da ilha é tão vasta quanto os animais, ela aparece em painéis específicos, dando a sensação de cobrir e aparecer em todas as páginas e quadros. Essa mesma preocupação em nos maravilhar é usada para nos dar a sensação de desconforto ao retratar os corpos desmembrados, suas tripas e o seu sangue.

Não vou entrar em mais detalhes para não estragar a experiência dos demais leitores, acabei comprando o mangá por ter me interessado pela capa. Como relatei isso já teve resultados adversos, ao menos esse começo me pareceu bem promissor. Com uma história que sai um pouco das convenções do gênero, que traz muita ação e personagens no mínimo inusitados, com uma arte deslumbrante, encantadora e desconfortável, me fisgou. Ao que parece a série já foi finalizada no Japão em 13 volumes, além disso foi anunciado que ela será transformada em animação. Vale a pena conhecer essa infernal e divina obra.  

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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