Quando éramos reis

Hellboy, o demônio que está do nosso lado

Na receita para sucesso no universo pop, mais do que a originalidade , a execução ou o orçamento, pesa o conceito. Como ninguém na sua geração (Sin City chegou perto), Mike Mignola criou um conceito irresistível nos gibis de Hellboy, pela editora Dark Horse. Olhando de agora, pode parecer fácil cravar que a mistura de horror gótico, folclore, sobrenatural, “pulp fiction”, magia, uma pitadinha de teoria da conspiração, arte expressionista e vigorosa narrativa visual daria certo. Mas nenhum gênio foi capaz de prever isso em 1994.

Quando iniciou Hellboy, Mignola chamou John Byrne para escrever o script e o texto da primeira minissérie, “Semente da Destruição”. Byrne acertou a embocadura com uma bela narrativa em off, expondo o que se passava na cabeça do demônio – um demônio invocado à terra por ocultistas a serviço da máquina de guerra nazista, que cai sob os poderes dos aliados e acaba combatendo o mal, em vez de liberá-lo. Era a primeira aparição e fazia sentido mostrar os conflitos internos que assaltavam o personagem.

O que aconteceu foi que, dali em diante, Mike Mignola assumiu as rédeas e simplificou o texto, deixando-o lacônico como num gibi de Frank Miller, eliminando por tabela o drama pessoal. Hellboy poderia ser a prometida besta que iniciaria o apocalipse, mas não estava interessado em saber disso e muito menos em cumprir esse papel. A arte também é simplificada; se no primeiro número ainda admite detalhes realistas, já no terceiro número, parte sem medo para a estilização, um movimento como o de Alberto Breccia em Mort Cinder: se você se chateia quando Jack Kirby faz os dedos do Reed Richards quadrados, nem abra essas páginas.

O gibi atinge seu ápice, e fica ali por vários anos, empilhando prêmios. A execução do conceito é soberba. Mignola recruta coloristas que transmitem o clima exato, enriquecendo uma arte que já era irretocável em preto e branco.

Os melhores roteiros são triviais: Hellboy recebe notificação de uma manifestação sobrenatural incomodando a população em um ponto do mundo, vai lá, quebra o pau, fim. É na narrativa dinâmica, eminentemente visual, com total controle do tempo de leitura – esticado para criar tensão, acelerado para gerar desconforto – a escolha precisa de planos, sobretudo a completa incapacidade de repetir uma diagramação (cada página tem uma disposição diferente de quadros, em arranjo e formatos) sem prejuízo para e entendimento, fazem da leitura um deleite.

Hollywood percebeu um filão ali e foi atrás, e teve filmes, desenhos animados, videogames. Uma adaptação para o cinema de uma história envolvendo um personagem coadjuvante de Hellboy, Abe Sapien, chamada “A Forma da Água”, recebeu 4 Oscars.

Tudo prova da força daquela visão idiossincrática externada em minisséries ao longo da década de 90.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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