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Grama

Editora Pipoca e Nanquim lança Manhwa de Keum Suk Gendry-Kim

Editora Pipoca e nanquim lança Manhwa anti-guerra.

 

O último lançamento da editora Pipoca e Nanquim finalmente chegou a graphic novel chamada Grama da autora sul coreana Keum Suk Gendry-Kim, é o primeiro Manhwa, a maneira local de se referir a quadrinhos coreanos, vendo a qualidade da escolha ficamos no aguardo de novas publicações desse país. Assim como Maus, Gen- pés descalços e o recente Eles nos chamam de inimigos é um tratado antiguerra, especificamente um libelo contra as crueldades da segunda guerra mundial.

 

A história é autobiográfica retratando a vida de Ok-sun Lee, que foi entrevistada pela autora numa casa de partilha, residência para senhoras que sobreviveram como mulheres de conforto. Esse termo é um eufemismo usado para definir as milhares de vítimas femininas oriundas de territórios ocupados pelo exército nipônico, obrigadas a realizar favores sexuais as tropas japonesas, ou seja, é um conceito usado para designar mulheres forçadas à escravidão sexual e prostituição nos bordéis militares japoneses.

Grama começa retratando os campos cheios de neve chegando vagarosamente até a residência de uma envelhecida Lee que volta da China, onde residia, para a Coréia do Sul após uma reportagem sobre sobreviventes desses bordéis, mesmo contrariando sua família ela volta, um pouco para recuperar contato com seus irmãos e um pouco para buscar justiça, hoje ela é porta-voz contra as agressões que sofreu, tendo conhecido celebridades e concedido entrevistas para diferentes mídias ao redor do mundo.

Após esse prólogo entramos no primeiro capítulo, nele Ok-sun é uma menina que é obrigada a trabalhar e que tem de cuidar de seus irmãos mais novos, ela não teve uma infância divertida, seu maior desejo era frequentar uma escola como os demais, contudo fazendo parte de uma família pobre não podia realizar seu sonho, entre dias e noites de fome, a violência do meio em que vivia e promessas não cumpridas a vida consegue ficar ainda pior.

É mostrado na obra que jovens eram enganadas e sequestradas, levadas à força para esses campos de escravos, sendo transportadas por caminhões e trens até lugares inóspitos, o que dificultava a fuga, um fato inusitado é que muitos dos administradores desses lugares eram civis e alguns dos colaboradores eram residentes locais que auxiliavam os invasores da terra do sol nascente.

Aos poucos a história vai progredindo conforme vamos conhecendo mais do passado de Lee, a quadrinista começa a pontuar momentos em que ela interage com a vovó, essas inserções são excelentes para colocar um pouco do sentimento de Keum no papel através de balões de fala, bem como humanizar ainda mais a protagonista, mostrando que mesmo sendo uma pessoa que passou por algo muito trágico ainda encontra leveza em conversar sobre amenidades, durante seu pesaroso relato.

A arte é um caso a parte, em diversos capítulos Gendry-Kim recria paisagens para contemplar o espaço, dando ao leitor o tempo necessário para respirar e até conjecturar sobre o que está sendo relatado. O desenho pode ser muito diferente para o eventual leitor dos comics americanos, o traço é mais leve e caricato, com pinceladas fortes e bem definidas. A cena em que ocorre o primeiro estupro é muito bem apresentada, felizmente é usado um recurso que consegue dar espaço para a reflexão.

A autora não mede esforços em mostrar um pouco da ocupação japonesa na Coreia, durante esse período a exploração foi intensa, levando a população a uma marginalização e a um enorme empobrecimento, a própria língua coreana era proibida, ao serem sequestradas as mulheres eram obrigadas a se comunicar em japonês e adotar um nome dessa nacionalidade.

A edição nacional é simplesmente brilhante, além de um fitilho preto para marcar as mais de 480 páginas em off-set de alta gramatura, a edição possui capa dura e sobrecapa. Curiosamente era para ser lançada primeiramente apenas a capa na cor cinza elaborada pela equipe de arte, contudo ocorreu a desaprovação maciça dos leitores.

Percebendo seu erro os editores resolveram corrigi-lo, primeiro trabalhando a imagem escolhida anteriormente, dando

destaque com um fundo amarelo e com o logotipo da revista emulando o original coreano. Ademais, os mesmos responsáveis pelo Pipoca e Nanquim, também são detentores de um canal de Youtube, foram em público com a ideia de transformar essa capa amarela em sobrecapa, mantendo por dentro a imagem da edição original.

Por mais que tenha muitos aspectos a serem abordados, muitos podem ser considerados como spoilers, por isso vou evitar, a obra foi indicada a 03 Eisners e ganhou diversos prêmios no mundo, trata de uma das situações mais delicadas da segunda guerra mundial e que até hoje causa muita celeuma, outro enorme acerto do pipoca foi traduzir um texto sobre as mulheres de conforto escrito pela pesquisadora Myung-sook Yun, além de um posfácio da própria autora.

Keum Suk Gendry-Kim

Pode não ser uma obra para todos os tipos de leitores, mas têm tudo para agradar aqueles que querem mais do que apenas entretenimento, serve como ponto de partida para aqueles que torcem o nariz para os quadrinhos. É sem sombra de dúvida uma obra forte, impressionante e emocionante que revela um momento pouco explorado ou divulgado e que ganha uma edição que é um petardo.

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