Coluna F3

Fun Home: Uma casa divertida para quem está de fora

Fun Home da autora Alison Bechdel já tinha sido lançado pela editora Conrad em 2007 e voltou anos depois pela Todavia, finalmente consegui pegar a HQ e dar uma lida, confesso que não a considerei nem um pouco engraçada, isso deve-se ao subtítulo que é ostentado na capa com os dizeres Fun Home, uma tragicomédia em família. O Fun Home com certeza é trocadilho de Funeral Home, ou casa funerária.

É inegável o talento dessa quadrinista em falar sobre temas delicados e muito pessoais, ela narra sua infância e a descoberta de sua sexualidade além de segredos familiares. Alison manteve um diário desde seus dez anos de idade e com suas anotações ela recria suas memórias construindo uma novela gráfica sobre sua vida e da sua conexão com seu falecido pai, que era professor, diretor de uma casa fúnebre, além de ter duas gigantescas obsessões: a primeira era um assíduo leitor e colecionador de livros e a segunda era restaurar a casa vitoriana em que a família residia.

A autora narra logo de início uma de suas esparsas lembranças de carinho e contato físico com seu pai, uma pequena brincadeira que é substituída pela necessidade dele em deixar a casa arrumada, uma das poucas tarefas que sabia realizar com certa perfeição, talvez uma resposta a um sentimento que não conseguia expressar. Os relatos apresentados no livro mostram um homem seco, sem muita ternura, que tinha muita dificuldade em ser pai e marido, pois de acordo com o exposto ele não era nem mesmo capaz de se aceitar e viver bem consigo.

A narrativa é bem interessante não tenta ser linear, como se contado para si mesma o ocorrido ela coloca nas páginas fragmentos de informação que tenham alguma ligação com os fatos narrados no capítulo, de fato entre os sete segmentos da graphic novel é mais importante a reflexão sobre o tema abordado do que a continuidade temporal, daí em alguns momentos estarmos em 1980 enquanto um ponto posterior da trama se desenrole nos anos 70 ou 60, ela se preocupa em autoanalisar seu passado e traçar um paralelo entre seu crescimento pessoal e a morte de seu pai.

A autora vai de forma despretensiosa jogando pedaços importantes de informação que muda a nossa percepção sobre o dia a dia daquela família, é preciso dar um pequeno spoiler para explicar melhor a história, Alison Bechdel cresceu numa pequena cidade no interior dos Estados Unidos, o mesmo lugar em que seu pai morou, um local cheio de preconceitos e um tanto atrasado. A obra mostra que ambos possuem uma grande conexão ela é homossexual e acaba descobrindo após a morte do pai que ele também era a diferença é o momento em que viviam ela consegue se tornar uma lésbica assumida e orgulhosa de si mesma, todavia seu pai não teve essa mesma oportunidade.

A sinceridade e muitas vezes crueldade com que se retrata é parte de seu jogo reflexivo, que tenta buscar a raiz de seu descontentamento, isso deixa o álbum com caráter ainda mais intimista, estamos invadindo suas memórias conhecendo suas cicatrizes emocionais e vendo que muitas delas ainda não cicatrizaram, talvez esse até seja o intento da autora um trabalho de autoanálise para se redescobrir e ressignificar sua vida e trajetória trazendo à tona um pai mais humano do que ela lembrava.

A narrativa como dito vai entregando informações de forma acidental, meio sem intenção, primeiro descobrimos que o pai morreu num atropelamento, depois com as informações que recolhe ela tem quase que certeza de um suicídio, primeiramente Bechdel se acha a responsável contudo ela desiste de sua responsabilização após descobrir outras informações sobre seu pai, alguns segredos que eram conhecidos por sua mãe.

Além da relação entre pai e filha que é desenvolvida na história, apenas a mãe de Alison tem um certo destaque, deve se apontar que a quadrinista era a mais velha dentre três irmãos que aparecem em momentos pontuais, mas não são efetivamente desenvolvidos. A mãe é tão relevante que ganhou um livro aparte intitulado Você é minha mãe? Um drama em quadrinhos, que foi publicado em 2013 pela Quadrinhos em Cia.

Essa graphic novel tem um desenho bem interessante, é meio simples e dinâmico, sem nenhuma preocupação em mostrar muitos detalhes realistas, é uma excelente estilização que sempre mostra os personagens com expressões mais severas, com um olhar de tédio ou de raiva. A sua narrativa vai modificando com os capítulos, inicialmente os recordatórios serviam mais para narrar o que acontecia em cena conforme as reflexões vão crescendo com a história ficando mais intimista a arte e o texto tornam-se entidades distintas apresentando coisas diferentes, em muitos casos até complementares.

Não é por acaso que Alison levou mais de duas décadas para contar a sua relação com seu pai, mostrando como um homem severo e sem nenhum tipo de afeto e amor, talvez tivesse um pouco de ternura que compartilhava através da paixão em comum deles, a literatura, fato que acabou moldando a quadrinista permitindo a ela se descobrir. Fun Home é uma obra que aborda a aceitação sexual de duas pessoas de gerações diferentes, a publicação é muito importante e contínua atual não é à toa que foi eleita o livro do ano pela revista Time além de ganhar o prêmio Eisner.

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