Quando éramos reis

Flaming Carrot – As confusões de um Homem-Cenoura Flamejante

Quando se fala em quadrinhos surrealistas, o que costuma ser lembrado primeiro são as historietas de Philippe Caza para a Heavy Metal, o erotismo de um Barbe ou os álbuns de Philémon. Sempre alguma coisa europeia, muito colorida e bem cabeça. Ninguém fala no excelente representante do gênero, Flaming Carrot, definido por seu criador, Bob Burden, como “o primeiro super-herói surrealista do mundo”.

A “Cenoura Flamejante” é um personagem de corpo humano com uma cabeça (máscara? Não dá para dizer, visto que ele nunca remove) de cenoura gigante, que qual mula sem cabeça ostenta um fogaréu à guisa de penteado, que fritou o cérebro depois de ler 5.000 gibis, de uma só sentada, para ganhar uma aposta, reaparecendo com a nova identidade. Flaming Carrot tem referências pop, tem sátira ao gênero super-herói – só saem inutilidades de seu cinto, por exemplo – que se senta confortavelmente na categoria humor.

E o que acontece num gibi típico da Cenoura em Chamas? Pode começar já em alta rotação, com o personagem principal fugindo numa moto, onde carrega na carona um bebê lobisomem. Depois, enfrentar uma tribo de pigmeus perseguidos por roubar pães franceses para esculpir uma orelha gigante (dentro da qual moram) com o miolo. A expressão mente insana foi criada para gente como Bob Burden. Nas horas vagas, Flaming Carrot namora com duas moças e tem flertes eventuais com outras coadjuvantes.

Como os irmãos Hernandez em Love & Rockets, Burden entendeu a lição de Crumb que o meio dos quadrinhos exige muita pouca contextualização; não é preciso dizer “Mansão do professor Xavier, Westchester, New York” para engajar o leitor: joga no meio da ação e segue dali, mantendo a bola sempre no alto. Funciona. As histórias são pesadamente guiadas pela trama, mesmo que as ações não se prendam a uma linha lógica. Outro elemento que contribui para a sensação de estranheza é o traço bastante realista, que causa muito contraste com os comportamentos e diálogos bizarros.

E há senso de humor, não apenas amalucado, também sutil, como a decepção que a Cenoura sente após perceber que a cordinha do gancho de escalada disparado era muito curta. Ou andar vestindo permanentemente pés-de-pato, caso precise nadar.

Coma seu chapéu, Madman: Flaming Carrot é tudo que você sempre quis ser.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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