Quando éramos reis

FAX DE SARAJEVO, de JOE KUBERT

Joe Kubert recebe um Fax:

Quando recebeu o primeiro fax de seu amigo Ervin Rustemagic, representante comercial e editor iugoslavo, em 1991, Joe Kubert estava em idade de se aposentar, era uma lenda viva (remanescente da era de ouro!) e seu nome já tinha virado sinônimo de escola de quadrinhos. O que haveria ali para mexer com ele a ponto de voltar para a prancheta?

Ervin fora pego de surpresa, junto com sua família, pelo ataque da artilharia da Sérvia a uma Sarajevo no mais devastador massacre étnico ocorrido na Europa na segunda metade do século. Com a casa bombardeada,

Ervin vagou com esposa e dois filhos pequenos por abrigos, enviando faxes para seus contatos internacionais na esperança de garantir um salvo-conduto que permitisse sair do país. Joe Kubert era um desses contatos.

Três anos depois:

Três anos depois, Kubert ainda não teria se desfeito daqueles faxes. Aquilo reacendeu algo dentro dele, um imigrante judaico polonês que deve ter crescido ouvindo histórias de genocídio e devastação na segurança dos subúrbios de Nova Iorque. Talvez imaginasse que nunca mais – pelo menos, não no mesmo século – haveria outro ataque tão claro e devastador direcionado contra uma etnia.

Coincidentemente, Kubert fizera sua fama, em parte, desenhando histórias de guerra.

A decisão de colocar em quadrinhos as agruras da família de Rustemagic não era algo trivial para Joe Kubert. Seu forte não era o realismo, nem a biografia, nem os dramas familiares, gêneros que nunca explorara. E mais: depois de décadas como editor freelancer, desenhando apenas esporadicamente, ainda teria jeito para encarar mais de 100 páginas?

Mas sua motivação era muito grande.

Uma boa leitura:

Fax de Sarajevo é bom de ler, tem ótimo ritmo, sem desperdício de espaço, com informação adicionada a cada página; a mão treinada de editor se faz sentir em todos os capítulos. Limitado com expressões fisionômicas, Kubert extrai o máximo que pode das poucas cenas de ação, aproveitando para aplicar as lições aprendidas dos tempos dos gibis de guerra. As pessoas voam, com expressões de horror, a cada explosão.

A representação de uma cidade bombardeada, tanto o moderno centro comercial como a área histórica, é crível e um dos pontos altos da arte. Ervin Rustemagic ganha tons de herói, másculo, carrancudo, num retrato que pouco a ver com o sujeito ameno das fotos do apêndice (e não teria se virado se não fosse sua capacidade de fazer amigos).

Um documento de guerra:

As cores foram feitas pelo estúdio europeu de Rustemagic e parecem refletir a ideia de quadrinhos de super-heróis que europeus tem: são básicas, estouradas, com muita cor quente no que, no final, é uma tragédia. O gibi funcionaria bem sem cores e ganharia muito com uma colorização mais realista.

Fax de Sarajevo é um documento de guerra tão detalhado como as reportagens em quadrinhos de Joe Sacco sendo leitura mais agradável. A sensibilidade para retratar cenas de tensão e ternura em meio ao caos é um dos pontos altos e Kubert não se furta a fazer críticas à inação da Comunidade Europeia (depois, União Europeia) para deter a guerra e a imobilidade de Itália e França para fornecerem salvo-condutos.

Metalinguagem:

A metalinguagem salpica referências ao universo dos quadrinhos no roteiro: Ervin salva um prêmio Yellow Kid dos escombros; participações especiais de Herrmann e Hugo Pratt; as revistas usadas para amortecer estilhaços, dentro de um carro.

Em 1997, aos setenta anos de idade, um Joe Kubert ainda surpreso receber o prêmio de melhor álbum do ano por Fax de Sarajevo em San Diego, entregue por Will Eisner, que fora seu patrão mais de cinquenta anos antes. Kubert começou fazendo trabalhos menores, apagando lápis, varrendo o chão. No estúdio de Eisner, até o faxineiro desenhava muito.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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