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Dr. Fantástico (1964)

Kubrick transforma homens incompetentes e com fetiche pela guerra em uma das mais ácidas comédias de todos os tempos

Stanley Kubrick foi um diretor com a incrível capacidade de criar obras primas e clássicos da sétima arte em todos os gêneros pelo qual se enveredou, seja na ficção científica com “2001: Uma Odisseia No Espaço” (1968), no suspense com “O Iluminado” (1980) ou na guerra com “Nascido para Matar” (1987), e, com a comédia, não foi diferente, pois em 1964, em plena Guerra Fria e com o mundo temendo um holocausto nuclear decorrente da tensão entre as duas maiores superpotências, Estados Unidos e União Soviética, Kubrick levou para as telas “Dr. Fantástico” (“Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb” no original), uma pérola recheada de humor negro e crítica social.

Originalmente, a intenção do diretor era produzir um drama político sobre os perigos da guerra nuclear, baseado no livro “Alerta Vermelho” de Peter George, mas ao se deparar com o tremendo absurdo que é dois países aumentarem seus arsenais nucleares exponencialmente, ao ponto de serem capazes de destruir o planeta não uma, mas inúmeras vezes, e mais do que isso, deixar esse poder apocalíptico nas mãos de um punhado de homens com inegável fetiche pela guerra, decidiu migrar para a sátira.

Este fetiche e associação entre guerra e sexo surge logo na cena de abertura, onde um avião militar abastece outro em pleno voo em uma clara analogia com o ato sexual, tão explícita que é impossível não a perceber.

Na trama, o general Jack D. Ripper (Sterling Hayden), cujo nome, não por acaso, é idêntico ao famoso assassino serial Jack, o Estripador (Jack, the Ripper), crente em uma teoria da conspiração onde os comunistas soviéticos estariam envenenando o suprimento de água norte-americano para assim eliminar a essência da nação, transformando homens em fracos, ordena um ataque nuclear não autorizado à diversos alvos estratégicos na União Soviética. Seu objetivo é fazer com que o governo norte-americano não tenha outra alternativa senão entrar em uma guerra total.

Para poder impedir que os bombardeios atinjam seus alvos, causando retaliação dos soviéticos e o início de uma Guerra Nuclear, o presidente Merkin Muffley (Peter Sellers) reúne seus generais e conselheiros na sala de guerra, para que possam encontrar uma solução.

Kubrick faz com que o absurdo da situação fique evidente ao percebermos dois fatos cruciais, em primeiro lugar, os homens responsáveis pelo poderio bélico, pelos arsenais nucleares e consequentemente pelo destino de milhões de vidas, não são necessariamente mentes brilhantes, e podem, inclusive, ser de uma terrível estupidez.

Em segundo lugar, somada à estupidez, está o apreço pela guerra, homens que enxergam no conflito militar sua razão de existir e a melhor maneira de solucionar desavenças com outra nação, e para os quais os milhões de vidas perdidas são apenas números em uma tabela, baixas aceitáveis se o inimigo sofrer danos maiores. O general Buck Turgidson (George C. Scott) é exemplo claro deste comportamento, exalta o presidente a disparar contra os soviéticos, sorri quando explica que no máximo vinte milhões de civis norte-americanos irão morrer na guerra, e vibra como uma criança ao explicar a capacidade de um bombardeiro chegar até o seu alvo sem ser detectado.

O desejo pela guerra, como já dito anteriormente, é comparado ao desejo sexual; veja que o General Ripper ordena um ataque nuclear pois não consegue explicar sua própria impotência na cama, culpa então os comunistas e a compensa com a morte de seus inimigos. Temos também T. J. Kong (Slim Pickens), comandante de um dos bombardeiros, que ao receber as ordens de ataque, troca seu capacete de piloto por um chapéu de cowboy, símbolo máximo do herói, o macho alfa e viril norte-americano. Cena das mais icônicas do cinema é a em que Kong despenca do avião, montado em uma ogiva nuclear, como se fosse uma ereção gigantesca, enquanto urra de prazer, tal qual em um orgasmo.

Por fim, Peter Sellers, ator e comediante britânico, famoso por seu inspetor Jacques Clouseau na série de filmes “A Pantera Cor-de-Rosa”, interpretou três personagens diferentes no longa, o presidente Muffley, o Capitão Lionel Mandrake e o que dá nome ao filme, o ex cientista nazista, o doutor Strangelove.

São três personagens interpretados de forma bem diferente, um presidente que tenta se impor nas conversas por telefone com Dimitri, o Premiê soviético, mas não consegue, um educado capitão britânico tentando convencer a todo custo o general Ripper a entregar os códigos que trariam os bombardeiros de volta, mas se mostra acuado, diminuído, incapaz de se fazer ouvir, assim como a própria Inglaterra, já incapaz de rivalizar com as superpotências, e, por fim, um nazista que vende seus serviços para os Estados Unidos enquanto tenta de forma hilária esconder sua admiração pelo fascismo e pelo falecido Hitler.

A mistura de um roteiro ácido com o humor de Sellers rende uma comédia que é constantemente colocada entre os melhores filmes de todos os tempos. Talvez por isso, em um filme que custou 1,8 milhões de dólares, o humorista tenha recebido 1 milhão ou 55% de todo orçamento.

Pena que, passados quase seis décadas, Dr. Fantástico continua atual, com comunistas como os protagonistas de diversas teorias da conspiração, arsenais nucleares nas mãos de homens nem um pouco brilhantes e que parecem sentir tesão por bombardeios, e pela possibilidade de enviar jovens para morrer nos campos de batalha.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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