Coluna F3

Dorohedoro: a mistura ideal entre violência e diversão

Dorohedoro é sobre…

Dorohedoro é escrita e desenhada por Q Hayashida, que trabalhou na série por quase 20 anos. O material começou a ser publicado ainda em 2000 pela revista  Seinen Monthly Ikki, da Shogakukan, sendo concluída na  Monthly Shōnen Sunday, em 2018. Algo que deve ser notado é que a mangaká era responsável por toda a arte, normalmente ao alcançar algum sucesso os autores acabam se valendo de ajudantes para acelerar a produção e conseguir entregar o material para as editoras dentro dos enxutos prazos de publicação.

A qualidade da arte e do texto é simplesmente incrível, há conceitos inventivos e estranhos, é quase que uma experiência lisérgica sem a necessidade de uso de alucinógenos.  

Particularmente conheci primeiro o anime que foi lançado pela Netflix em 2020, o estúdio MAPPA ficou incumbido em animar a história. Como é um dos estúdios que mais gosto não pestanejei e mergulhei de cabeça na produção, o que vi me agradou demais. A história nos dois meios me fisgou nos primeiros momentos pois fiquei boquiaberto pensando: “O que é isso que estou vendo?” Há a mistura temáticas mais adultas com elementos de mangás tradicionais.

Somos apresentados a uma fábula que mistura terror, amizade, família, dramas pessoais, segregação racial, mistério, magia e busca por uma identidade.

Um mangá/anime divertido e bizarro.

Eu gosto de acreditar que conheço um pouco da cultura japonesa, consigo nomear vários mangakás e obras de peso, mas sempre me esqueço de que o mercado japonês é infinitamente maior do que o nosso, há incontáveis títulos de sucesso que não tiveram o merecido reconhecimento fora do Japão. Ao conhecer a obra fiquei simplesmente sem palavras, a primeira imagem que vemos, no mangá e na animação é de um homem tendo seu crânio abocanhado pelo que parece um réptil gigante.

O mais estranho é que de dentro da boca desse monstrengo sai uma figura humana que diz que a pessoa sendo mordida não é quem estão procurando, o que dá margem para o dragão humanizado simplesmente cortá-lo em pedaços.

Essa sensação de estranhamento acompanha-nos por todo o momento, aos poucos somos apresentados a um cenário pós-apocalíptico em que existem magos e bruxas, que podem transitar entre dois universos diferentes através de portas mágicas que são abertas por uma poeira negra que sai da ponta de seus dedos. Isso mesmo, a magia que é empregada nesse mundo é visível, pois os feiticeiros possuem seus órgãos modificados que os permitem produzirem essa fumaça especial.

As peculiaridades do homem com rosto de lagarto:

Estranhamente nosso protagonista um enorme homem com rosto de lagarto é imune aos efeitos da magia, as razões não são conhecidas, o lagartão nem mesmo sabe seu nome ou seu rosto, seu passado é desconhecido, suas lembranças começam do momento em que sua face foi trocada pela de um réptil.

No seu segundo “nascimento” o nosso herói recebeu o nome de Caiman, um caçador de bruxos que busca o responsável pela sua mutação, ao seu lado está sua amiga Naikado, que além de ajudá-lo no combate aos feiticeiros também é proprietária do restaurante Hungry Bug cuja especialidade é o Gyoza, o prato predileto do lagartão. Ela luta utilizando poderosos chutes, muita agilidade e capacidades acrobáticas.

Eu assisti todos os doze episódios da série animada com muito prazer, mas folhear as páginas e ver os detalhes, os conceitos visuais e toda a inventividade sem limites da história me deixa embasbacado.

Mas… só um volume?

Mesmo tendo apenas um volume a construção de mundo é fantástica. Como dito temos dois universos distintos, o dos nossos protagonistas é mais escuro, sucateado, as pessoas usam trapos, vivem num lugar miserável que é explorado pelos magos da outra dimensão, na realidade eles sobrevivem sobre os escombros do mundo dos Bruxos, um lugar conhecido como o Buraco. Os feiticeiros, do mundo dos magos ou En, por sua vez têm o costume de metamorfosear as pessoas desse local abandonado, transformando-os em diferentes animais com sua poeira negra.

Todos usam máscaras, a razão ainda não foi explicada, mas por baixo delas eles possuem rostos normais, parece que vivem num mundo mais claro, menos sujo, com um pouco de “glamour”. Esses feiticeiros possuem uma organização social, ao menos parece assim, definida em razão da produção dessa fumaça preta, quanto maior a quantidade, maiores serão seus poderes e o seu valor social, permitindo até que tenham subordinados.

Essa primeira edição me deixou com muita ansiedade pelo próximo volume, mesmo tendo visto a animação, recomendo a quem tenha dúvidas sobre a obra, ler o mangá dá mais profundidade à trama. O roteiro é interessante e instigante, abusa de elementos de terror, sendo bem visceral e violento. Há muita violência gráfica com corpos sendo mutilados, cabeças decepadas, mordidas, rostos arrancados, enfim quem se diverte com um pouco de sangue não terá do que reclamar.

Outros aspectos da obra:

Ademais, a obra apresenta relações de amizade que parecem até laços familiares, há um aprofundamento na personalidade dos personagens, dos dois universos, há uma certa complexidade e humanidade em suas ações e razões.

Outro aspecto que deve ser mencionado é que há um tom de humor, não é uma comédia, mas a série sempre que possível satiriza algumas de suas excentricidades, há quase sempre algum motivo para esboçar um leve sorriso. Assim sendo faço questão de recomendar esse mangá, ele é divertido, violento, inventivo e surpreendente.

Mistura diversos elementos que criam algo novo e envolvente, rapidamente nos apegamos ao personagem principal que não é uma figura muito preocupada com a moral e os bons costumes, é alguém que busca sua identidade. Essa é uma leitura divertida que deve agradar a quem gosta de uma atmosfera gótica, recheada com muita violência e um leve toque de humor.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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