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Django (1966)

Django de Sergio Corbucci não é herói, é um homem em busca de vingança e lucro pessoal

Se nos Estados Unidos, a imagem do Cowboy com seu revólver Colt na cintura, desbravando o velho oeste e levando justiça para uma terra inóspita e sem lei, marcou para sempre o imaginário popular e povoou as telas dos cinemas com clássicos da sétima arte, o mesmo pode ser dito dos samurais no Japão, com sua temível espada e sua honra inabalável.

O que muitos talvez não saibam, é que roteiros de alguns dos grandes sucessos do velho oeste basearam-se em obras do Japão, com o cowboy substituindo o samurai como protagonista.

Este é o caso, por exemplo, de “Sete Homens e um Destino” (1960), cujo roteiro é uma cópia de “Os Sete Samurais” (1954), de Akira Kurosawa.

O mesmo ocorreu com “Por um Punhado de Dólares” (1964), faroeste espaguete e primeiro filme da trilogia dos dólares de Sérgio Leone, contando com uma trilha sonora magistralmente composta por Ennio Morricone, e estrelado por ninguém menos que Clint Eastwood, interpretando o pistoleiro sem nome.

Leone era fascinado pelo cinema japonês, e baseou seu roteiro em Yojimbo, filme de 1961, também dirigido por Kurosawa, que desta vez obteve na justiça 15% dos lucros do longa dirigido pelo italiano.

Chegamos finalmente em Django, faroeste dirigido pelo também italiano Sergio Corbucci, que estreou em 1966, e narra a história do homem que dá nome ao longa, que chega em uma pequena cidade próxima da fronteira com o México, aterrorizada pelo confronto sangrento entre duas facções, os sulistas do Major Jackson (Eduardo Fajardo) e os revolucionários mexicanos sob ordens do general Hugo Rodriguez (José Bódalo).

Se você assistiu “Por um Punhado de Dólares” e depois “Django”, é impossível não notar o quão parecidos são os roteiros, e não apenas isso, tanto fisicamente, quanto em sua interpretação, Franco Nero, escolhido para interpretar Django, tenta emular Eastwood, o protagonista do longa de Leone.

Sim, ainda que hajam diferenças, Corbucci copiou Leone que copiou Kurosawa.

Dito isso, o longa tem seus méritos, filmado com baixo orçamento, e com uma direção mais crua de Corbucci, Django carrega consigo um caixão, ou seja, para onde vai, leva a morte, e definitivamente não é herói, é um homem em busca de vingança.

Corbucci desvincula Django da imagem do herói com uma única cena, em que o personagem assiste impassível e sem interferir, enquanto Maria (Loredana Nusciak) é chicoteada por mexicanos. Ele só saca a arma e a liberta quando os homens de Jackson matam os mexicanos e ameaçam crucificar a moça.

O que Django procura é vingança e lucro pessoal, salvar Maria foi apenas uma consequência.

Outras características adicionadas por Corbucci são o racismo e a xenofobia por parte de Jackson e seus sulistas encapuzados. Há uma cena marcante em que Jackson faz mexicanos indefesos correrem, enquanto os mata com seu rifle por puro esporte, como se fossem animais.

Em oposição, Django, durante boa parte do filme, traja o uniforme dos soldados nortistas, que enfrentaram os Confederados durante a Guerra Civil, que encerrou a escravidão nos Estados Unidos, e chama os homens de Jackson de porcos sulistas.

Enlameada, a cidade onde se dá boa parte da ação, parece mesmo lembrar um chiqueiro onde a vida vale muito pouco. Antes mesmo do primeiro ato terminar, diversas pessoas perderam a vida com a mesma facilidade e rapidez com que se matam moscas, muitas delas através do Colt ou da metralhadora de Django.

Com exceção de Maria e Nathaniel (Angel Alvarez), ninguém parece ser de fato uma pessoa de confiança. Mesmo com a aliança entre o general e Django, fica sempre a impressão de que a qualquer momento haverá uma traição.

A redenção do personagem só vem quando, para não morrer, precisa abrir mão de tudo que lhe era mais caro, permitindo que o caixão afundasse em areia movediça junto com uma grande quantia em ouro. A partir daquele momento, vingança e lucro ficam em segundo lugar, e ele se dedica a salvar Maria, que por sua vez o salvou.

No final, as mãos ensanguentadas são, assim como o caixão era, reflexo da vida que ele levou e de suas motivações.

Vale também lembrar que, se Leone contou com Ennio Morricone para criar a trilha de sua trilogia, a música tema de Django, composta por Luis Bacalov e interpretada por Rocky Roberts também foi marcante e cumpriu muito bem seu papel, sendo inclusive utilizada por Tarantino em seu “Django Livre” de 2012.

Ainda que claramente inspirado no sucesso alcançado por “Um Punhado de Dólares”, os detalhes que Corbucci acrescentou e a forma como conduziu seu longa, fazem de Django uma obra que merece seu status adquirido como um dos clássicos do gênero.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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