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Dica de leitura: Tintim no País dos Sovietes

Lemos o álbum proibido do herói belga

Conhece a primeira aventura de Tintim?

Quer começar a ler o Tintim?

Até bem pouco tempo, você começaria a partir de Tintim no Congo, uma vez que por um bom tempo, tentaram apagar a primeira aparição do personagem.

Com a liberação de Tintim no País dos Sovietes, temos acesso à primeira aventura do personagem. A grande verdade é que aquele ainda era um Tintim tão embrionário e em desenvolvimento quanto seu criador, um personagem vazio, guiado não só pela história como pela necessidade de se criar ganchos para manter o leitor do Le Petit Vingtième interessado. Deu certo? Como ainda estamos falando do personagem quase um século após sua criação…

Talvez você não saiba, mas houve um tempo em que os jornais tinham suplementos infantis. Entre 1928 e 1940, quem comprasse o jornal Belga Le Vingtième Siècle numa quinta-feira, levava o Petit. No País dos Sovietes começou na 11ª edição. A história foi editada semanalmente entre janeiro de 1929 e maio de 1930 e republicado no formato álbum pela Éditions du Petit Vingtième em 1930.

Na história, o jovem repórter do Jornal faria uma viagem ao país vermelho, onde tiraria fotos para o jornal, só que ele e seu cachorro Milu acabam sendo perseguidos pelos comunas que querem impedir o vazamento de informações e precisam dar um jeito de continuar vivos.

A cada semana, duas páginas da aventura eram apresentadas. No último quadro sempre acontecia algo que os impulsionava para a edição seguinte: uma explosão, Tintim e Milu reagiam e geravam reações… ganchos básicos de uma história ainda mais básica que não passava de um manifesto anticomunismo. O dono do jornal, o abade Norbert Wallez, queria algo panfletário que mostrasse para as crianças os malefícios do comunismo, um mal que muitos estavam tentando importar da Rússia e ele pretendia fazer algo para impedir.

Ciente disso, Hergé fez vários comentários a forma opressiva que o novo regime tratava seus compatriotas e o quanto o que já havia sido um belo país estava destruído devido ao descuido de seus governantes. Como o autor ainda estava em desenvolvimento e era uma história para crianças, não espere questionamentos profundos. O mesmo vale para diversas atitudes que consideramos selvagens em 2020. Quer um exemplo? Numa das páginas, Tintim é perseguido por um avião que dispara vários tiros em seu carro. Alias, o uso de armas de fogo contra um suposto menor de idade é uma cena comum nas histórias do personagem que também as usa em vários momentos.

Apesar de o personagem ser descrito como um garoto entre 16 e 18 anos ao longo das histórias, na Europa daquela época era comum colocar crianças no front, tanto que alguns colégios chegavam a praticar jogos de guerra com os alunos, o que explicaria muitas das suas expertises.

Na verdade, esse Tintim mais apto só aparece nas histórias seguintes. A versão que vemos nessa história ainda é um personagem vazio e sem personalidade que só serve as necessidades do roteiro. O mesmo pode ser dito de Milu, que é descrito como um animal que fala (até demais). O próprio traço do autor ainda está muito embrionário, o curioso é que lembra bastante o estilo meio art noveau de autores contemporâneos como o Brasileiro Luiz Sá (Reco-Reco, Bolão e Azeitona) e George McManus, criador da tira Pafúncio e Marocas.

O álbum é bom? Sim e não. Ainda não é o Tintim que você conhece, mas diverte. E tem essa história dele ter sido proibido por quase 50 anos, né? Por mais que o autor não tenha feito uma crítica mais aprofundada do comunismo, algo que anos depois, ele diz ter se arrependido, a coisa acabou irritando e a primeira aventura do Tintim foi varrida para debaixo do tapete.

Se você encontrar um exemplar e quiser ler sem compromisso… fique à vontade.

 

 

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