Coluna F3

Destino Adiado, a genial obra de um dos maiores mestres europeus

Quadrinhos tem muito a dizer…

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Sinto uma sensação bem desagradável ao conversar com pessoas que se espantam ao descobrir que os quadrinhos possuem muita coisa a dizer. Acredito que os leitores habituais tenham alguma noção sobre as possibilidades narrativas do meio. Há “gibis” para todos, todavia o grande público conhece principalmente as histórias infantis, os super-heróis e os mangás. Há obras que poderiam possuir um apelo universal, que devem ser republicadas para tentar chegar a um público que normalmente não se interessaria. Persépolis, Maus, Verões Felizes, Recado a Adolf, Gen: pés descalços, Círculo de Giz, A Grande Farsa, Bando de dois: são exemplos de material ideal para novos leitores, entre eles incluo Destino Adiado de Jean-Pierre Gibrat.

Não é para fãs da Marvel nem da DC.

Eu tive a oportunidade de ler esse álbum no começo de 2020, logo na data de seu lançamento, assim como, a maravilhosa Graphic MSPCascão Temporal o personagem principal se vê obrigado a manter-se recluso, algo bem semelhante ao que estava ocorrendo no Brasil e no mundo com a chegada da pandemia do Coronavírus. Enquanto na história de Camilo Solano nosso sujão predileto está preso por uma tempestade na obra de Gibrat a quarentena de Julien ocorre para que salvar sua vida.

Não acredito que esse material seja ideal aos apaixonados pelos quadrinhos da Marvel ou DC, ou aos leitores de boa parte dos mangás. No entanto, há uma boa chance dessa obra agradar muitos leitores casuais por mostrar uma história humana, com um protagonista falho, mas que é interessante e divertido. Alguém que busca sobreviver aos horrores da guerra.

A arte e o roteiro são muito bons, há uma preocupação em retratar o cenário e o cotidiano de uma pequena cidade, que é muitas vezes quase um personagem.

A trama.

A trama começa em 1943, logo após a fuga de Julien Sarlat que escapa de um trem que iria realizar trabalhos numa França ocupada por alemães, para sua sorte ele consegue desembarcar antes que o veículo fosse alvejado pelos inimigos. Assim, na calada da noite Julien volta para uma pequena vila rural, local em que cresceu sendo cuidado por sua tia, ao se reencontrar com ela coincidentemente na mesma manhã oficiais franceses trazem a notícia de que o trem em que supostamente estava seu sobrinho fora bombardeado pelos nazistas, ele é considerado oficialmente falecido.

Sabendo que não seria mais importunado, o jovem acaba ficando num casarão, próximo à praça central, de um professor judeu e comunista que foi deportado. Como uma alma penada Julien vira um voyeur assistindo o cotidiano da cidade, permanece como um cativo durante os dias dentro da casa, permitindo-se algumas cuidadosas caminhadas durante as frias e vazias madrugadas. Ele necessita dessa “prisão domiciliar” para sobreviver visto que há membros da resistência, que poderiam de fato acabar com sua vida.

A observação forçada, para dar um certo alento e passar o tempo, logo mostrasse desconfortável e difícil, principalmente pelo fato dele conseguir observar a sua grande paixão, a garçonete Cécile, uma antiga colega de escola. Ele vive nesse isolamento observando a cidade e tendo longas conversas com um manequim de capacete, sua única companhia além do rádio que traz narrativas do mundo externo. É interessante observar que o nome do primeiro álbum é Sursis, para quem conhece um pouco de direito penal, é como se chama a suspensão condicional do processo, simplificando, é uma espécie de perdão condicionado.

Gibrat não se preocupa em fazer uma narrativa épica.

Uma das coisas mais interessantes nessa obra é que Gibrat não se preocupa em fazer uma narrativa épica com um dos maiores heróis da guerra, o protagonista na verdade é muitas vezes mesquinho, deixa claro seu egoísmo e a sua frustração com sua condição, mostra que aos poucos ele vai se descuidando, necessita de um contato humano maior do que o quem, quando eventualmente com sua tia.

A história num primeiro momento é mais lenta, nos permitindo conhecer as pessoas daquele pequeno vilarejo, vemos sua rotina e quase ouvimos suas vozes.

A narrativa no início é mais cadenciada, não há nenhum tipo de enquadramento diferenciado, é tudo muito tradicional, todavia conseguimos ter uma cumplicidade com Julien, pois acompanhamos a sua crescente frustração vendo calado os acontecimentos da cidade. A passagem de tempo é pontuada com a mudança das cores, assim como na variação do semblante de Julien.

Gibrat deixa claro que o heroísmo está em todos os lugares nessa comunidade rupestre que se manteve inalterada por muito tempo, conseguindo até mesmo sobreviver aos horrores da guerra.

Há muita coisa a ser abordada, no entanto tento me esquivar dos spoilers. Essa é um dos melhores exemplos do que há de melhor na produção europeia. Gibrat ao produzir essa obra já tinha um nome estabelecido, trabalhava na indústria por décadas, todavia ele primordialmente era o ilustrador de textos de outros escritores. Essa sua primeira abordagem como escritor de uma história mais longa nos mostra um artista mais completo, que sabe abordar brilhantemente a condição humana, fazendo uma crítica das barbáries da guerra sem mostrá-la de forma direta.

Sua arte é incrível assim como o seu texto. Não é nenhuma surpresa que esse petardo chegue ao Brasil pela Pipoca & Nanquim, numa edição de luxo caprichada, com reunindo os dois álbuns, simplesmente imperdível.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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