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Desejo de Matar (1974)

Ao contrário do Capitão Nascimento, Paul Kersey não percebeu que o inimigo era outro

Na década de 70, a violência era marca registrada em muitas cidades norte-americanas, especialmente na maior delas, Nova York, com índices de roubos, furtos e assassinatos explodindo, enquanto gangues de rua se enfrentavam por território e a polícia se mostrava incapaz de conter a criminalidade.

A sétima arte, é claro, não se mostrou indiferente ao que ocorria nas ruas dos Estados Unidos, produzindo “Táxi Driver” (1976) de Martin Scorsese, clássicos como “Warriors – Selvagens da Noite” (1979), e os brucutus, dispostos a resolver a questão na bala em filmes como “Dirty Harry – Perseguidor Implacável” (1971) e “Desejo de Matar” (1974), que gerou uma franquia com 4 sequências e um remake estrelado por Bruce Willis em 2018.

Quando falamos em Desejo de Matar, inevitavelmente lembramos de Charles Bronson, ator que ao ser escalado para viver Paul Kersey, já contava com seus 53 anos, e cuja carreira ficaria marcada para sempre pela franquia, ainda que ele tenha em seu curriculum uma obra-prima como “Era uma vez no Oeste” (1968).

Desejo de Matar começa com Kersey e sua esposa, Joanna (Hope Lange) em férias no Havaí, com o mar e um pôr do Sol maravilhoso. Joanna diz para Paul que não quer voltar para casa, como se já antecipasse a tragédia que está por vir. Quando retornamos para Nova York a câmera mostra o mesmo pôr do Sol, mas uma fotografia suja não o mostra mais como encantador, mas ameaçador, pois é durante a noite que a maioria dos crimes violentos acontecem.

Kersey não é um matador, é um cidadão comum, um arquiteto, contra o uso de armas e chamado por um colega de “liberal de coração mole”. Um evento trágico, no entanto, mudará drasticamente seu modo de pensar e sua conduta, quando o apartamento em que ele vive é invadido por três criminosos, que espancam até a morte sua esposa e estupram sua filha, em uma cena brutal.

O roteiro aparentemente pretendia mostrar uma descida gradual de Kersey, que para enfrentar sua perda, decide se vingar, matando criminosos, mas esbarra na atuação de Bronson que não consegue convencer ou passar em momento algum a dor que o personagem deveria estar sentindo.

O próprio nome do filme (Death Wish no original) guarda uma dupla interpretação que se perdeu na tradução. Death Wish seria melhor traduzido como Desejo de Morte, que tanto pode ser a dos criminosos que ele irá caçar, quanto a própria, uma vez que não suporta mais o peso de viver depois do ocorrido.

A discussão sobre as causas da violência é tratada de forma simplista e o filme não se preocupa em esconder o que defende.

Ao viajar para Tucson, no Arizona, a serviço, ouve de Ames Jainchill (Stuart Morgolin), um cliente, que uma arma é apenas uma ferramenta como um martelo ou um machado, e que Tucson é a cidade da arma, que não há um homem que não tenha uma, e que em suas ruas você pode andar seguro, porque ladrões se dariam muito mal se tentassem agir.

De volta para Nova York, com a arma que ganhou de presente de Jainchill, Kersey começa a caçar e matar criminosos nas ruas, recebendo da imprensa o nome de “Vigilante” e o apoio de boa parte da população amedrontada.

A polícia, com medo de gerar uma onda de “novos vigilantes” e pessoas que reagem a assaltos, não divulga os dados, mas a criminalidade cai, indicando que os criminosos deixaram de agir por medo de serem mortos.

O filme expõe então, praticamente todos os argumentos pró armas e do uso de força letal como principal meio de redução da criminalidade. O homem que era contra as armas, muda de ideia quando o crime e a tragédia batem à sua porta, armas nas mãos de cidadãos tornam as ruas mais seguras, e a possibilidade de morrer faz com que os criminosos pensem duas vezes antes de assaltar ou matar.

Em Desejo de Matar não há o outro lado da moeda, criminosos são repulsivos, maus, e ponto, matá-los é a solução.

Você não verá pessoas reagindo a assaltos e sendo mortas, até mesmo uma velhinha, motivada pelas ações do vigilante, reage contra assaltantes e leva a melhor. A Justiça com as próprias mãos não leva a erros de julgamento e a suposta inocência até que se prove o contrário é sumariamente ignorada.

Paul torna-se herói anônimo e suas ações inspiram outros a segui-lo.

A própria polícia não quer prender “o vigilante”, receando criar um mártir, e Kersey, ao contrário do que poderia se esperar, não termina enfrentando as consequências de seus atos, ele simplesmente se muda para Chicago, com uma cena final que deixa claro que iniciará sua cruzada contra o crime em uma nova cidade.

Desejo de Matar não é um filme feito para se discutir a violência, suas causas, e quais métodos são mais eficazes, é sobre vingança, sobre um homem que se transforma em juiz, júri e executor, matando assaltantes, sendo previsivelmente aplaudido e reverenciado pelo público, motivado pela emoção e pelo desejo de ver o mal sendo punido em uma dicotomia que simplifica o caos urbano.

Talvez não haja frase que resuma melhor seu roteiro quanto a tantas vezes repetida: “bandido bom é bandido morto”, embora sempre bom lembrar, Kersey tenha restringido sua fúria às ruas imundas de Nova York, ignorando mansões, políticos corruptos ou bandidos do colarinho branco.

Ao contrário do icônico Capitão Nascimento de Tropa de Elite, Paul Kersey não percebeu que o inimigo era outro.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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Um Comentário

  1. Não obstante este filme representa o desejo de todo cidadão que não quer se sentir vítima, impotente, mas quer tomar o destino de sua vida em suas mãos.

    Não é diferente do Coringa de Joachim Phoenix, só que este não era inicialmente doente e descamba pro lado do vigilante.

    Não se voltar contra políticos corruptos é óbvio já que estes não são seu problema, são até seus clientes.

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