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Deadwood Dick, Bonelli cria história a partir de (suposto) personagem real

A pouco tempo a editora Bonelli lançou um selo para publicar, de acordo com o seu editor Michele Masiero, quadrinhos com temáticas e narrativas mais “adultas”, em tamanho diferente do material publicado regularmente, batizado de Audace, curiosamente esse é o primeiro nome da editora, ademais insta informar que já foram publicados no Brasil ao todo seis álbuns, três do personagem Deadwood Dick e três de Mister No, todos trazidos pela Panini.

Em regra, o material da editora Bonelli é direcionado para um público adulto, assim analisando Deadwood Dick percebe-se que o material seria um pouco mais “sério”, com mais violência e talvez um pouco mais de sexo e nudez que não fazem parte da publicação tradicional, claro que Dylan Dog assim como algumas aventuras do próprio Tex poderiam me desmentir, mas isso é assunto para outro texto.

Pulps de Deadwood Dick.

Normalmente a Bonelli prefere trabalhar com suas próprias criações, mas em Deadwood Dick há uma adaptação do trabalho do escritor norte-americano Joe R. Landsdale famoso por escrever livros de faroeste, de terror, mistério, ficção científica, quadrinhos e até se aventurar no reino da animação. A HQ retrata a vida do cowboy afro-americano Nat Love, que ganhou fama como pistoleiro após a Guerra da Secessão, o primeiro dos três álbuns lançados por aqui é chamado de Negro como a noite, vermelho como o sangue, sendo baseado no conto Soldierin que foi publicado em 2010.

Essa primeira HQ é escrita por Michele Masiero e conta com a arte de Corrado Mastantuono, o texto é energético e bem competente, começa com o relato futuro de uma luta por sobrevivência, assim brincando um pouco com linearidade somos apresentados a pontos distintos no tempo, como a divagação de alguém lembrando uma história até chegar ao momento que deu inicio a toda a trama, essa história é toda contada em primeira pessoa, é o próprio Deadwood Dick que a conta, algumas vezes se dirigindo ao público leitor como se fizesse um relato.

A narrativa foca na sobrevivência de um homem negro em meio a um país extremante intolerante, a razão para ele ter de fugir de sua cidade natal e se alistar ao exército é no mínimo fútil e descabida, enquanto ele cortava lenha ao se deparar com uma mulher branca que estava por perto acaba tendo pensamentos de cunho sexual, apenas essa divagação é responsável para que sua vida seja posta em perigo, o irmão dessa mulher ficou ofendido com o olhar do negro e por isso ele deveria ser morto.

A história também critica a Guerra da Secessão, como os negros que ajudaram na luta armada não foram auxiliados, sendo abandonados e deixados por conta própria vítimas de marginalização que sofrem até hoje. O mais interessante do álbum é a aparição de um regimento composto apenas por homens afro-americanos, liderados por um homem branco, contudo diferente do que convencional não é preconceituoso e sim bem progressista.

A rotina no forte é importante e leve, servindo para nos familiarizarmos com algumas figuras bem diferentes, culminando no embate que inicia a história, a luta de dois povos oprimidos por espaço, de um lado um grupo de negros e do outro selvagens indígenas. Os diálogos são bem conduzidos, cada personagem parece ter uma voz própria não pequenos recortes do escritor, alguns são sagazes, outros mais lentos, outros impacientes e há até aqueles que agem e soam como idiotas.

Muitos filmes de faroeste desde John Ford até Sergio Leonne entre outros, pouco ou nunca retratam a figura do negro, uma das exceções seria o primeiro longa-metragem da história, (Birth of a Nation) Nascimento de uma nação de 1915, dirigido por D. W. Griffith, neste filme os afrodescendentes são mostrados como pouco inteligentes e responsáveis pelas mazelas socias, os atores eram brancos pintados com carvão e salvação viria pela Klu Klux Klan. Felizmente os tempos mudaram, há uma busca por maior respeito graças ao movimento Black Lives Matter e claro a excelentes discussões nas mídias como as séries da HBO, Watchmen e Lovecraft Country, bem como a segunda temporada de Umbrella Academy que tentam mostrar os absurdos e abusos que ocorriam, que infelizmente até hoje acontecem. Essa obra também tem sua relevância por trazer mais argumentos a essa discussão.

A arte de Mastantuono é muito eficaz, além de um excelente domínio da anatomia, o seu entendimento de luz e sombra traz uma dinâmica única as cenas, suas composições são impressionantes, a sua capacidade de desenhar pessoas com rostos e formatos de corpos diferentes é genial, as sequências de ação são de tirar o fôlego, ele mostra a que veio logo na primeira página com closes de Nat e um indígena que o ataca, a atmosfera de perigo e o peso da narrativa culmina numa imagem que vai ficar em nossas mentes até que esse ponto é alcançado novamente na história.

Ademais seus cenários são fantásticos, ele desenha as paisagens com impressionante realismo, sem contar no figurino e roupas das pessoas, somos transportados para o velho oeste, ele nos entrega uma sensação de calor num clima seco e árido, os ambientes internos são bem detalhados e a primeira vez que vemos o Forte McKavett é lindo, assim como sua preocupação em detalhar as expressões faciais e os diferentes animais, tudo é bem desenhado até domar um cavalo é emocionante e engraçado, só por isso o álbum já seria obrigatoriedade para quem gosta do gênero.

Deadwood Dick, Negro como a noite, vermelho como o sangue é um dos melhores lançamentos do ano passado, o bom é que há ainda dois outros álbuns lançados por aqui com a mesma qualidade, essa primeira aventura vem com extras informativos sobre a obra de Landsdale, esboços e um histórico da vida de Nat Love, um excelente acerto da Panini, vale a leitura para quem não gosta do gênero e sendo obrigatório para os apaixonados.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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