Coluna F3

Chanbara: O Japão Feudal à italiana.

Há um tempo, mais precisamente no fim de 2019, a editora Panini lançou a Graphic Novel “ChanbaraO caminho do samurai”, são dois contos que trazem um violento retrato do Japão feudal. Chanbara foi lançada na Itália pela editora Bonelli, os roteiros são de Roberto Recchioni contando com a bela arte de Andrea Accardi. Como de costume, para o material da Bonelli, há muito cuidado histórico, muita pesquisa e o uso de muitas referências.

São histórias mais “plausíveis” que respeitam as tradições e o país oriental. Um grande indicativo disso é o nome Chanbara, que é a junção de duas onomatopeias chan-chan, bara-bara que designam o barulho da lâmina que corta a carne, a sua simplificação Chanbara é usada para designar filmes com lutas de espadas, ficou bastante popular com o clássico “Os Sete Samurais”.

Qual a trama de ChanbaraO caminho do samurai?

A obra apresenta duas histórias: uma mostra a clássica busca de vingança, já a outra retrata a tentativa de alcançar a justiça. O primeiro conto, A Redenção do Samurai, homenageia diversas produções diferentes, principalmente aos clássicos de diretores como Kurosawa, Kobayashi e Mizoguchi. Na história o jovem Tetsuo Kogawa é incumbido por seu lorde, daimyo em japonês, a conduzir seu foragido mestre até ele, a jornada que parecia ser tranquila mostrasse mais problemática com o surgimento de ladrões e de uma população esfomeada e explorada.

Como disse é impossível não traçar um paralelo com “Os Sete Samurais”, no filme de Kurosawa um grupo de camponeses solicita a ajuda de espadachins para lidar com bandidos que abusam de suas terras.

No fumetti, quadrinho em italiano, há quase o mesmo plot, durante a sua jornada o jovem observa uma realidade que desconhece, mostra que parte de sua ignorância está atrelada a sua posição, aos poucos ele aprende uma realidade de sofrimento e esta situação de miséria está ligada ao desaparecimento de seu mestre. Há muitos combates, bem como discussões filosóficas que fazem parte da ideologia dos samurais, esses guerreiros eram muitas vezes estudiosos da condição humana, alguns como Miyamoto Musashi escreveram livros.

Protagonismo feminino?

O segundo conto da edição é As Flores do Massacre, aqui o protagonismo fica por conta de uma jovem que tenta cometer suicídio após a execução de seus pais pelas ordens do daimyo daquele feudo, a moça é levada a um local em que será treinada nas artes das Kunoichis, como eram conhecidas ninjas mulheres, o roteiro não destoa muita da obra Lady Snowblood, mangá escrito por Kazuo Koike, ilustrado por Kazuo Kamimura e adaptado para o cinema por Toshiya Fujita

Assim como em Lady Snowblood, aqui a bela assassina não possui nenhum tipo de remorso ou culpa. Após conseguir completar seu treinamento ela parte em sua arriscada missão, valendo-se de seus atributos físicos, muito técnicas mortais e de seu intelecto, sai em busca de vingança não se importando com nada e nem ninguém, seu desejo é único e imutável. Ela vive no chamado Meifumado, ou a estrada para o inferno, esse é um termo usado no mangá “O Lobo Solitário” para definir o amaldiçoado trajeto para alcançar a vingança.

Tipo Zaitochi?

Além deles há um personagem cego, conhecido como Ichi, ou Zatoichi, um homem baixo, simpático e que parece sempre saber de tudo o que acontece à sua volta, alega que necessita da ajuda para tudo. Todavia ele não é tão incapaz quanto parece, ele possui uma técnica de luta quase imbatível. Esse personagem ficcional é tão importante que já foram produzidos filmes e séries em que ele é o protagonista, até mesmo o grande quadrinista brasileiro Júlio Shimamoto já criou histórias com ele. Na trama Ichi se encontra tanto com a jovem dama como com o aprendiz de samurai.

Ele é no primeiro momento quase ignorado, mas ao demonstrar ter mais conhecimento que deveria acabava sendo ouvido. Ichi é quem salva a garota e a leva para treinar. É quem mostra ao inexperiente samurai a existência da fome, miséria, da exploração da população, ou seja, mostra a corrupção. Ele é um cego que “enxerga”.

A trama é simples, mas muito bem escrita, ela apresenta um roteiro acertado. Roberto Recchioni respeita os clássicos do gênero, mas também mostra seu apreço pelo material feito para o mercado norte-americano ao dedicar a obra ao quadrinista Frank Miller, que é famoso por colocar essa temática em suas HQs e ter sido um dos primeiros entusiastas dos mangás.

Os bandidos que surgem no meio do caminho parecem ter saído de uma das páginas da sua série Ronin. O escritor explora bem a temática, sabendo dar um “descanso” para apreciar a paisagem, algo comum nesse tipo de narrativa. Sabe conduzir de forma eficiente a história, que mesmo não sendo tão original é apresentada de forma bem equilibrada e segura.

Ah, a arte…

A arte de Andrea Accardi é espetacular, ela segue a cartilha da Bonelli, desenhos eficientes, com muita referência visual. Sua diagramação é mais convencional, não tenta inovar, mas é muito funcional por mostrar uma tradução fiel dos lugares e da indumentária da época. As paisagens e a contemplação fazem parte da obra, há momentos em que a natureza assume temporariamente o protagonismo, há muitos planos abertos.

Outra coisa a se destacar é o seu eficiente uso de onomatopeias, outra demonstração de respeito à cultura sendo retratada. Além disso, a sua paleta de cor é variada e carrega um componente emocional, ela ajuda a passar a emoção dos personagens, o clima, mostrar a passagem do tempo e diferenciar os ambientes.

Chanbara é uma obra muito boa. Seus personagens são interessantes, conseguimos entender seu lugar no mundo, suas motivações, nos importamos com eles. Há um enorme respeito com o cenário, o próprio desenhista agradece por ter passado um tempo no Japão. Além disso, há muito homenagem a obras literárias, audiovisuais e até quadrinhos algo que apenas enriquece a experiência. Em suma, é uma obra muito bem escrita e com uma ótima arte que respeita o Japão e suas tradições. É mais um grande acerto do selo Audace, da Bonelli editora, ou seja, é uma boa graphic novel da Panini, vale muito a pena para os amantes do gênero.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo