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Cerebrus, a genial criação de Dave Sim

Alan Moore disse que “Cerebus está para os quadrinhos assim como o átomo de Hidrogênio está para a Tabela Periódica”. Só soa exagerado para quem nunca leu.

Cerebus foi criado por Dave Sim em 1977, no Canadá, como uma paródia de Conan. O mote se esgotou num par de anos, exigindo soluções de roteiro mais complexas. Veio o clique. Cerebus deixaria de satirizar apenas um gênero ficcional; faria a sátira do mundo todo.

Tudo no mundo de Cerebus pode ser lido como um comentário ao nosso mundo. Se, no Ocidente, as ideologias tomaram conta do século XX, o mundo de Cerebus é regido por religiões. Se, no Ocidente, o patriarcado é criticado, o mundo de Cerebus é comandado por uma ditadura matriarcal. O contraponto entre indivíduo e coletivo é retratado como Cerebus ser o único de seu tipo, um porco-do-mato entre humanos – uma ideia emprestada de Steve Gerber, em Howard, o Pato.

Frequentemente, Dave Sim remixa personagens, ficctícios ou reais, de nosso mundo, como seus coadjuvantes: o primeiro-ministro Lord Julius tem toda a aparência e a agilidade verbal de Groucho Marx; Albino é uma caricatura de Erlic de Melbonine, com a personalidade do Frangolino. Nem sempre para fins de humor: Oscar Wilde tem sua morte narrada em retrospectiva na memorável história Melmoth; a decadência de Scott Fitzgerald e Zelda é revisitada quando Cerebus esbarra com um escritor chamado F. Stop Kennedy num cruzeiro; Ham Ernestway é o suicídio de Hemingway, sob a mesma luz. O volume de referências é tão específico que chega a atrapalhar o deleite.

Nunca uma leitura leve, mesmo quando rápida: High Society tem 500 páginas, Church & State, 1200 (!), os arcos médios, umas 300. Em 27 anos, Sim tirou leite de cada elemento da gramática dos quadrinhos, com destaque para letreiragem e diagramação de página, onde tem controle absoluto do timing. Uma série para levar para ilha deserta e passar o resto da vida relendo.

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Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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