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Campo dos Sonhos (1989)

Uma carta de amor ao baseball e aos sonhos

Campo dos Sonhos, dirigido por Phil Alden Robinson (A Soma de Todos os Medos, Band Of Brothers, Ep. 01), narra a história de Ray Kinsella (Kevin Costner), pequeno fazendeiro casado com Annie (Amy Madigan) e pai de uma menina, Karin (Gaby Hoffmann) que enquanto está em seu milharal, ouve uma voz fantasmagórica que lhe repete diversas vezes a frase “Se você construir, ele virá”.

Embora ele seja o único a ouvir a voz, posteriormente, tem a visão de um campo de baseball onde ficava parte de sua plantação, e nele, “Shoeless Joe Jackson” (Ray Liotta), apelido de Joseph Jefferson Jackson, jogador de baseball que foi ídolo de seu falecido pai, John Kinsella.

Jackson realmente existiu e seu apelido (Shoeless) vem do fato dele ter retirado os calçados que estavam lhe machucando e jogado descalço uma partida de baseball. Ele, assim como é revelado no filme, foi expulso do esporte, junto com outros sete jogadores, por suspostamente ter vendido a final de 1919 quando jogava pelo Chicago White Sox, falecendo em 1951.

A ideia de se construir um campo de baseball no meio de uma fazenda por conta de uma voz que se ouve é definitivamente insana, mas Ray decide seguir em frente por uma espécie de instinto e por uma explicação que revela muito sobre como era seu relacionamento com o pai: “Tenho 36 anos, uma esposa, uma filha e uma hipoteca, e morro de medo de virar o meu pai. Eu nunca o perdoei por ter envelhecido”, frase que também pode ser traduzida como “eu nunca o perdoei por ter aberto mão de seus sonhos”.

Ray acredita que se construir o campo, de alguma forma, por mais absurdo que pareça, Shoeless Joe Jackson aparecerá, e, para não se parecer com o pai, decide dar ouvidos à voz que lhe pede para seguir em frente.

Annie, a esposa, que poderia se opor, uma vez que o tal campo consumiria as economias, ao mesmo tempo que ocuparia espaço significativo da fazenda, diminuindo a colheita e o lucro, mesmo sem ouvir a voz, aceita (rápido demais até) que Ray precisa construí-lo.

Se imaginamos que a construção do campo e possíveis empecilhos ocuparão boa parte do longa, aos 20 minutos já vemos ele pronto e Joe Jackson faz sua primeira aparição. Annie e Karin também conseguem vê-lo, o que desmonta qualquer possibilidade de acreditarmos que Ray possa alucinar.

O nome “Campo dos Sonhos” começa a ser desvendado com a conversa entre Ray e Joe: “Cara, eu amava este jogo, jogaria por migalhas, era o jogo, os sons, os cheiros….tinha a multidão, levantando quando a bola era rebatida. Puxa, eu teria jogado de graça”.

Quando estourou o escândalo em que foi descoberto a venda da final por parte dos jogadores do White Sox, supostamente um dos motivos seria o baixo salário pago aos jogadores. Agora, no campo, Joe revela que o dinheiro não era nada comparado ao sonho de seguir jogando.

Nos dias que seguem, outros jogadores se juntam a Joe, enquanto Ray e sua filha assistem aos jogos. Nenhum deles consegue sair do campo, e vale dizer que a solução encontrada para que eles desapareçam é simples e eficiente, eles simplesmente entram no milharal e somem.

O único conflito a ser enfrentado pela família passam a ser as prestações da hipoteca, que com a diminuição da colheita, a queda do rendimento e o fim das economias, deixam de serem pagas, porém, em nenhum momento acreditamos que o perigo é real.

James Earl Jones e seu vozeirão impactante estão no filme, como o escritor recluso Terence Mann, mas não há muito espaço para seu talento brilhar, ainda assim, há uma cena em que o ator consegue, sem uma única palavra, mostrar todo o medo e excitação que seu personagem sente diante de uma viagem ao desconhecido.

Outro coadjuvante, Burt Lancaster, interpreta o também falecido “Archibald “Moonlight” Graham”, que ao contrário de Shoeless Joe, jamais existiu na vida real. Moonlight é o oposto de Joe, ele jogou apenas um jogo na Liga e jamais teve a oportunidade de rebater uma bola. Decidiu por conta própria abandonar o jogo, sonhando com a rebatida que nunca fez.

Além disso, Joe se arrependeu amargamente do que ocorreu em 1919, enquanto Moonlight trouxe uma série de benefícios para a comunidade onde atuou como médico e jamais se arrependeu do que fez, trocou um sonho por outro.

O Campo dos Sonhos é um filme sobre baseball, é claro, que no fim das contas, assim como o futebol aqui no Brasil, povoa os sonhos de norte-americanos, mas mais do que isso, é um filme sobre sonhos que se foram, sonhos abandonados, que muitas vezes são trocados por algo maior, como Moonlight fez, e que nem sempre tem a ver com dinheiro, como Shoeless Joe, que jogaria de graça se pudesse.

O sonho de Ray, o que motivou a frase “se você construir, ele virá”, e o campo em sua fazenda, é revelado no final, e tem a ver com perdão e reencontro, com o seu pai, que abriu mão de seu sonho de ser jogador de baseball para criar o filho.

Quem entre nós não sonhou ter apenas mais um dia com uma pessoa amada, para poder dizer coisas que não foram ditas.

Eu sonhei e ainda sonho.

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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