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Cabo do Medo (1991)

Em mais uma parceria com Robert De Niro, Scorsese transforma uma família em prisioneira impotente do medo

Martin Scorsese e Robert De Niro fizeram inúmeras parcerias de sucesso durante suas carreiras no cinema, desde “Taxi Driver” (1977), passando por “Os Bons Companheiros” (1990), até “O Irlandês” (2019), lançado pela Netflix, e em 1991, em remake de um filme homônimo de 1962, o diretor apostou novamente no ator para dar vida a Max Cady, ex presidiário, preso por estupro e agressão, que finalmente ganha a liberdade após 14 anos.

Cady culpa seu advogado de defesa, Sam Bowden (Nick Nolte) pela sua prisão, já que ele ocultou a informação de que a vítima seria promíscua. Já aqui há um questionamento interessante sobre o papel de um advogado ao aceitar um caso. Bowden sonegou a informação porque sabia que Cady havia de fato estuprado uma jovem e não queria ver a vítima ser crucificada em um tribunal.

Algo semelhante ocorre quando Cady espanca e estupra Lori Davis (Illeana Douglas), colega de trabalho de Bowden, com quem o advogado começava uma espécie de affair. Ela se recusa a depor contra o criminoso, pois conhece como funciona o sistema, e sabe que teria que explicar o porquê de estar em um bar naquela hora, o quanto bebeu, o que vestia, e porque foi para a cama com um desconhecido, como se ela fosse a culpada pelo que lhe aconteceu.

Scorsese não leva muito adiante essa discussão e não deixa qualquer margem para que o público sinta simpatia pelo antagonista, ele é frio, calculista, violento, e parece estar sempre no controle da situação.

É mais um caso em que o vilão acredita estar certo, que sua causa, a vingança, é justa; religioso, pede ao advogado que leia as escrituras, o livro de Jó, para ser mais específico; em sua visão, é fácil ser bom quando se tem família, dinheiro e prestígio, sua pretensão é tirar daquele que o condenou, tudo que lhe é precioso.

Fora da cadeia, Cady começa perseguir e atormentar Bowden e sua família, no cinema, em um desfile na rua, próximo da residência, jamais de forma agressiva ou que infrinja a lei, sua presença torna-se uma ameaça constante.

O suspense funciona e aumenta gradativamente, sabemos que há uma bomba prestes a explodir, só não sabemos quando será. O que torna tudo ainda pior é a impotência de Bowden diante do que está acontecendo, já que, ao não cometer crime algum, Cady não pode ser preso novamente.

O primeiro objetivo do ex presidiário é atingido quando a família se fecha em sua residência, trancando portas e janelas, prisioneira de seu próprio medo. Ocorrem também os desentendimentos típicos de pessoas que estão em seu limite, com os erros do passado sendo resgatados.

Sozinho, sem poder contar com a ajuda do sistema e da polícia, o advogado que sempre esteve do lado da lei, aceita cometer crimes para defender aqueles que ama.

Roteiro aliado à atuação de Robert De Niro concedem ao vilão ares de estar sempre dois passos a frente de suas vítimas, ameaçador, jamais ameaçado, Max Cady junta-se a Travis Bickle de Táxi Driver, como um dos personagens mais icônicos do ator.

Admirador de Alfred Hitchcock, Scorsese emula o diretor, usa e abusa das cores para retratar atenção ou perigo eminente, chegando até mesmo a preencher a tela por inteiro com elas, utiliza efeitos de cores negativas, closes direcionando a atenção do público para onde quer e movimenta sua câmera de forma a criar sensação de perda de equilíbrio e confusão.

Na realidade, entre todos os filmes de Scorsese, o que mais homenageia o estilo Hitchcockiano é Cabo do Medo, incluindo aí a marcante trilha sonora composta por Bernard Hermann, também responsável pela trilha de “Psicose” e “Um Corpo que Cai”, clássicos do diretor.

O filme tornou-se um clássico do suspense, está entre os mais lembrados de Scorsese, com De Niro sendo indicado para o Oscar de melhor ator e perdendo para Anthony Hopkins por sua magistral interpretação de Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes”.

Chegou até mesmo a ser adaptado para um episódio de “Os Simpsons”, com o vilão Sideshow Bob no lugar de Max Cady, culpando e caçando Bart Simpson pela sua prisão.

Se você gosta de um bom suspense, de Scorsese e De Niro, eis aqui um prato cheio!

Fernando Fontana

Fernando Fontana é escritor e adulto amador, criador do Site Super Ninguém e colaborador do Canal Metalinguagem, onde escreve sobre filmes e quadrinhos antigos. Tá sabendo da novidade? Somos parceiros da Amazon. Vai comprar na Amazon? Utilize o código: canalmetali06-20! e dê uma força para o canal.

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