Coluna F3

Asterix vs Coronavirus

A importância de asterix:

É inegável que alguns personagens nas histórias dos quadrinhos tenham destaque mundial, sendo tão conhecidos que muita gente sabe sobre eles sem nunca ter lido uma única história, é o caso do Batman, do Homem aranha e do Superman oriundos dos comics americanos. Temos Goku e Naruto que vieram das páginas dos mangás japoneses. No Brasil fomos agraciados com a queridíssima Mônica do Mauricio de Sousa.

Já a Europa, principalmente no mercado franco-belga, temos Tintin e claro o gaulês Asterix, um diminuto guerreiro de uma pequena aldeia localizada na Gália, atual França, que resiste bravamente aos avanços do império Romano.  

Asterix foi criado em 1959, suas primeiras histórias foram publicadas na revista Pilote, este periódico surge como um ensaio didático, mais voltada aos estudantes universitários, todavia esse viés acabou sendo modificado e abandonado logo no início, aproveitando-se de um tom mais adulto, os personagens começaram a ganhar uma relativa fama e com a publicação de obras como Tenente Blueberry, de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, a revista ganhou ainda mais popularidade e respeito sendo usada até mesmo em trabalhos acadêmicos.

O primeiro álbum do personagem foi editado já em 1961. É simplesmente inegável a importância da criação de Albert Uderzo e René Goscinny, respectivamente o desenhista e o roteirista da série.

O texto de Goscinny…

 O texto de Goscinny sempre foi muito elegante e satírico, ele fazia questionamentos sociais como ninguém, uma perfeita paródia de costumes. O traço de Uderzo era dinâmico, limpo e extremamente detalhado suas pessoas eram bem caricatas, com um teor humorístico próprio que se alinhava muito ao texto de seu parceiro. A dupla produziu muita coisa boa, todavia com a morte de Goscinny em 1977, Uderzo passou a ser o responsável tanto pela arte quanto pelo roteiro, infelizmente sem o brilho do escritor original. Sendo substituído com o tempo por Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, responsáveis respectivamente pelo texto e da arte.

Foram vendidas, no mundo todo, milhões de cópias de seus álbuns, traduzidas para dezenas de línguas e levadas a diversos países. Além de seus álbuns os devoradores de javalis foram transportados para o cinema tanto de forma animada como live-action, nos filmes com atores o destaque vai para o astro Gérard Depardieu que viveu Obelix em quatro longas. Há também um parque temático nos moldes da Disneyland nos Estados Unidos, inaugurado ainda no ano de 1989, nos arredores de Paris, que recebe milhões de visitantes por ano.

Nos últimos anos, no Brasil, ocorreu uma dúvida editorial muito grande girando em torno da marca, por muito tempo a editora Record publicou a série, mas desde 2016 ela não publicava nada por aqui. A incerteza que pairava girava em torno da possibilidade de que os títulos passassem a serem publicados por outra editora, com um acabamento mais luxuoso ou mesmo em uma coleção de livros que formaria uma bela lombada na lateral, nada disso se concretizou. Felizmente para os fãs podemos nos deliciar com material inédito por aqui pois a Record publicou, sem muito alarde, o álbum Asterix e a Transitálica de Ferri e Conrad.

Um Asterix inédito.

Confesso que estava com saudades de ler algo inédito de nossos heróis, foi uma grata surpresa poder folhear esse álbum que se tornou bem polêmico no ano passado devido ao nome do vilão principal. A trama começa com a alegação no senado de que o senador Propinus Imoralus ao invés de cuidar das vias italianas usava o dinheiro para financiar orgias, acuado o imoral político afirma que a alegação é infundada, tanto é que ele anuncia que fará uma corrida de bigas, espécie de carroça, que atravessará toda a península italiana, esta disputa estaria aberta a todos que assim desejassem, provando para o mundo a excelência das vias romanas.

O blefe é tão certeiro que deixa todos os senadores sem palavras, quem considera a ideia excepcional é Júlio César que vê a corrida como oportunidade para a unificação dos povos da península italiana, desde que a vitória fosse de um romano. Coincidentemente nossos amigos Asterix e Obelix, estão numa feira buscando ajudar Veteranix que está com dor de dente. Obelix é parado por uma cigana que lê sua mão dizendo que ele será declarado campeão, usando uma biga alada. Coincidentemente nesta área comercial nosso corpulento amigo encontra um veículo de tração animal que possui o formato de uma galinha, no impulso ele faz a compra ao ser questionado por seu pequeno amigo ficam sabendo da grande corrida Transitálica.

Uma corrida maluca.

Como era de se esperar os dois se inscrevem na disputa, uma espécie de corrida maluca com vários tipos diferentes, uma das bigas concorrentes é composta por uma dupla de piratas, quem acompanha os álbuns sabe muito bem quem são. Além deles há um par de lusitanos que parecem não estar em sintonia visto que um se chama folgado e o outro ocupado.

Entre os demais adversários está o representante romano, com um capuz dourado que ostenta um sorriso exagerado, vestes vermelhas com direito a capa, ele é ovacionado pela plateia que grita seu nome a plenos pulmões, o campeão mascarado chama-se Coronavírus, isso mesmo o nome do sujeito é Coronavírus, antes que alguém ache que os autores estão ridicularizando a pandemia, note que o material foi publicado na França em 2017.

Entre as andanças pela península nossos irredutíveis gauleses descobrem que a Itália não é composta apenas de romanos e sim de muitas etnias diferentes, alguns preferindo até mesmo torcer por nossos protagonistas. O texto de Ferri  é simplesmente encantador, como Goscinny ele consegue fazer uma paródia da sociedade italiana. Há muitas referências, nossos protagonistas experimentam muitos pratos típicos que ainda não possuíam as características atuais, que transformaram a culinária do país da bota numa das mais conhecidas do mundo. Eles passam por uma torre que parece torta, uma garota com um sorriso enigmático, diversas estátuas de “escultores renascentistas”, provam os encorpados vinhos locais e até passam por um certo vulcão que entra em erupção.

Conclusão.

Além do texto bem-humorado e com as tradicionais críticas de costumes, deve se destacar a incrível arte de Conrad que emula de forma excepcional o traço do grande Uderzo, este infelizmente faleceu no ano passado. A arte de Conrad respeita os personagens, as onomatopeias, a diagramação e todos os pequenos detalhes do trabalho do falecido artista. É um álbum fantástico, como disse o texto e arte respeitam muito a dupla original, mas trazendo um frescor, uma leveza e uma beleza que a série precisava. Jean-Yves Ferri e Didier Conrad são excelentes contadores de histórias que possuem uma paixão genuína pelos gauleses e mantiveram toda a qualidade que tornaram a obra num dos melhores e mais conhecidos quadrinhos do mundo. Agradeço a dupla Ferri e Conrad por essa linda obra e a editora Record.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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