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Batman: O Messias

Quando o Homem-Morcego enfrentou o Fanatismo Religioso

O Cavaleiro das trevas de Jim Starlin

A minissérie “Batman: o Messias”, lançada em 1988, escrita por Jim Starlin e ilustrada por Bernie Wrightson, narra o confronto do Homem-Morcego contra o diácono Blackfire, um messias que alega ser o enviado de Deus para salvar Gotham e seus habitantes.

O exército de Blackfire é composto em sua esmagadora maioria por indigentes, que por uma razão, ou por outra, encontram-se à margem da sociedade; e com grandes chances de uma existência repleta de miséria e infortúnios, rapidamente enxergam nas promessas do messias sua única esperança de uma vida melhor.

Todos aqui têm uma história semelhante. O sistema não funciona para os pobres e desafortunados”

Não é por acaso que Starlin coloca o quartel-general de Blackfire nos esgotos, local simbólico que ocupam os seguidores de Blackfire no mundo.

O religioso, no entanto, não direciona seus fiéis contra os que detém o poder, inicialmente ele os envia para combater o crime, mas de uma forma muito mais violenta do que o Morcego, assassinando brutalmente até mesmo aqueles que cometeram pequenos delitos.

O Batman que encontramos na primeira edição é um prisioneiro, faminto, fraco, sob o efeito de drogas e de lavagem cerebral. Em suas alucinações, ele mata o Coringa a machadadas, e o Duas Caras com uma rajada de metralhadora e gosta do que faz.

O diácono questiona os métodos do herói:

Quantos canalhas que você já prendeu que foram soltos imediatamente depois? Quantos criminosos parasitam pelas ruas livres e impunes?”

A repentina queda na criminalidade leva a uma sensação de maior segurança e ao apoio dos cidadãos aos métodos de Blackfire. Starlin prepara o terreno para que o leitor, assim como o próprio Batman, comece a duvidar se o messias não está certo.

Não demora, no entanto, para que os sinais da farsa comecem a surgir.

Começando pelo quarto secreto de Blackfire.

Embora também localizado no esgoto, o quarto do messias é luxuoso, repleto de objetos caríssimos; tudo isso escondido das vistas de seus fiéis seguidores; seu verdadeiro plano também é mantido em segredo.

Autoridades que discordam de Blackfire são assassinadas a sangue frio, o prefeito é morto, Gordon é atingido por um disparo e fica em estado grave, e parte da população, farta da corrupção, mais uma vez aplaude as execuções.

Eles estão morrendo agora? Eu acho pouco. Essa cachorrada tinha é que sofrer muito na vida”.

Há vozes dissidentes, mas são abafadas no meio do caos que começa a tomar conta da cidade, com o ódio se espalhando e ganhando força.

Batman, contando com a ajuda de Robin, consegue escapar do diácono, mas se encontra fraco, precisando se recuperar.

É muito interessante perceber a gradativa queda das instituições, do desprezo pela lei e pelos direitos adquiridos, ao mesmo tempo que boa parte da população aplaude. Gotham e Batman, os dois ao mesmo tempo, flertam com a insanidade.

Somente quando o inevitável acontece e Gotham cai nas mãos do messias e de seus seguidores, com as liberdades de expressão e de ir e vir eliminadas, é que o povo percebe o erro de apoiar as ações de um homem que se acha acima da lei dos homens.

São vários acertos de Starlin no roteiro, e a arte de Wrightson, que desenhou o Monstro do Pântano e foi reconhecido como um dos melhores desenhistas do gênero do terror, consegue mostrar com perfeição o desespero de um Homem-Morcego, que pela primeira vez teve o seu espírito quebrado por um adversário.

Eu posso dizer que surgem alguns problemas a partir da metade da terceira edição, justamente com a tomada de Gotham e os eventos subsequentes.

Tudo começa a acontecer rápido demais e com situações que parecem forçadas para dar o controle da cidade à Blackfire, a polícia e até mesmo o exército são derrotados rapidamente pelos fiéis, em um confronto muito pouco verossímil.

Na última edição vemos a população sofrendo as consequências de seus atos, ao apoiar plenos poderes para um maníaco, há cadáveres pendurados nos postes, pessoas são linchadas, a loucura toma conta das ruas.

Batman e Robin invadem a cidade com um Batmóvel que lembra um tanque de guerra, usam metralhadoras de dardos tranquilizantes; uma vez que até mesmo o exército falhou em invadir Gotham, era de se esperar que o morcego utilizasse o cérebro e não a força bruta para derrotar o messias.

Durante a luta final, Batman enxerga a verdadeira face de seu inimigo.

Como um todo, com os temas explorados por Starlin, esta minissérie está definitivamente acima da média; poderia ser ainda melhor se em vez de quatro edições, fossem cinco ou seis, dando espaço para o autor trabalhar melhor a perda de Gotham e sua posterior reconquista pelo herói.

 

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