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Banana Fish: Amor entre a violência

O Japão possui um dos mercados de publicações mais segmentados do mundo, há uma quantidade absurda de diferentes gêneros, um dos expoentes do mangá Yaoi que retrata o amor proibido, o romance tabu entre dois homens é Banana Fish da mangaká  Akimi Yoshida, que foi serializado na revista Shōjo Comic de 1985 a 1994 e adaptado para um anime em 2018, pelo estúdio Mappa, está sendo publicado bimestralmente no Brasil pela Panini em uma edição chamada big que compila 2 volumes do original.

Aqui temos talvez uma raridade entre os quadrinhos produzidos para garotas, além de apresentar uma novidade na época, não a parte de romance, mas o fato de ser recheado de ação e drama, um estilo que lembra bem mais a produção voltado ao mercado masculino. Há lutas de gangues, homens perigosos, muito sangue e violência. Outro ponto estranho é que são raras as personagens femininas.

Em Banana Fish acompanhamos a história Ash Lynx, um jovem líder de gangue que tenta com seu “trabalho” além de ajudar e proteger outros garotos de rua, seu irmão mais velho que no meio da guerra do Vietnã acabou enlouquecendo e atacando o seu pelotão entrando num estado catatônico balbuciando banana fish. Ao mesmo tempo uma dupla de jornalistas japoneses, Ibe e Eiji, viaja até Nova Iorque e acaba acidentalmente se envolvendo com o protagonista.

Um dos aspectos mais interessantes desse mangá é o fato de que Ash é a mesmo tempo um homem truculento e violento, contudo ele possui um forte censo de lealdade e justiça, ademais ele é uma espécie de batman, não na parte de se fantasiar e enfrentar criminosos, mas por ser ao mesmo tempo mais inteligente do que a média, mais forte, ser capaz de lutar muito melhor do que militares, é estrategista, extremamente culto, enfim não apenas as qualidades de um Bruce Wayne, também as qualidades de um Sherlock Holmes ou mesmo de um James Bond, alguém capaz de fazer um pouco de tudo.

Todos os seus atributos contrastam e muito com Eiji Okumura, um universitário japonês que cursa jornalismo, um ex-ginasta, ele antes de se machucar era saltador de vara, que viaja até Nova Iorque com o jornalista Ibe para realizar um relatório sobre as gangues de Nova Iorque, por causa dessa matéria ele conhece Ash e ambos quase que imediatamente começam a criar um forte elo.

A amizade entre os garotos Ash e Eiji, é meio desconcertante no começo, com Lynx sendo alguém mais bruto e sempre sério, carregando o peso dos mundos em seus ombros, enquanto Eiji é mais imaturo e frágil que consegue fazer com que o brutamontes solte alguns sorrisos e até uma expressão de ternura, um lado mais suave que propositadamente agradaria ao público feminino da época e o atual.

A mangaká escreve sua história de forma frenética, uma história acelerada que é bem capturada por seu traço simples e econômico que consegue de forma habilidosa mostrar as mudanças súbitas de humor e comportamento dos personagens. Seu traço é bem eficiente, é muito comum durante cenas de conversa ela apresentar apenas closes, em algumas páginas não há cenários, mas sua habilidade de situar e informar tudo ao leitor é tão impressionante que temos certeza de onde e como a sequência está ocorrendo, sem a necessidade de maiores informações.

Outro detalhe que chama a atenção é o quanto a obra é inspirada no texto do escritor norte americano J. D. Salinger, ela faz referência em diversos momentos, contudo nenhuma é mais evidente que o próprio título que vêm de um “A perfect day for Bananafish”, que já foi traduzido por aqui com o título de Um Dia Ideal para os Peixes-Banana. Há rumores de que a artista se baseou no tenista Stefan Edberg para desenvolver Ash e no ator Hinoboru Nomura para criar Eiji.

O sucesso do anime que está disponibilizado para o mercado brasileiro através do serviço streaming Amazon Prime, acabou permitindo que essa aventura com muita ação e amor homoerótico aportasse em nossas bancas e livrarias. Pode parecer dispensável para os mais machistas, confesso que algumas das cenas me soam estranhas, mas nada que uma dupla de hobbits já não tenha me mostrado de forma quase semelhante.

A história é bem conduzida, os personagens são cativantes, há muita ação, sangue, traições além de mais ação, sangue e uma conspiração governamental, a autora retrata uma cidade suja e violenta, onde os abusos sexuais são forma de sobreviver num lugar em que a maioria dos homens são homossexuais, brutos e dispostos a matar quem quer seja com facilidade e crueldade, aqui as relações humanas não valem muito, no entanto mesmo em meio a esse pesadelo há um vislumbre, uma salvação que nos aguarda.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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