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Atelier of Witch Hat – Minha bruxinha favorita

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Os quadrinhos de uma maneira geral servem para nos entreter, ensinar e também nos enfeitiçar, uma das obras mais bonitas e encantadoras dos últimos tempos é  Atelier of Witch Hat, é uma história de fantasia que vem sendo publicada desde 2016 pela editora Kodansha, escrito e ilustrado por Kamome Shirahama, está sendo publicada por aqui desde 2019 pela Panini, contando com 7 volumes até  momento.

Normalmente eu tento ser o mais imparcial possível em meus reviews, mas fui cativado de uma maneira que não achei ser possível a arte e o roteiro são apaixonantes.  A história em si é simples ela se passa num mundo em que feitiços são possíveis e a sociedade mesmo que a contragosto se desenvolve por meio disso. A trama gira em torno da garotinha Coco, uma camponesa que ajuda a sua mãe num pequeno ateliê de costura, ela é sonhadora, apaixonada por tudo, detentora de um coração puro, sempre curiosa, além de ser muito obcecada com magias.

O mundo depende de mágicos e bruxas, contudo apenas alguns que nasceram numa determinada casta possuem o direito de usar feitiços, os demais estão proibidos, ademais há um segredo sobre como esses encantos são lançados. Para que a trama se desenrole um jovem mago, Qifrey, vai até o ateliê de costura, o que desperta muito interesse em nossa pequena heroína. Mesmo sendo reprimida para não ver como se realiza os encantos, ela bisbilhota e mata sua curiosidade ao ver o jovem bruxo reparar uma carruagem quebrada, claro que a protagonista tenta repetir o que viu, contudo sem prática necessária comete um erro que congela sua mãe em pedra.

Ela é salva por Qifrey que decide ao invés de apagar a sua memória, conforme dita o protocolo dos magos, transformar a garota em sua aprendiz. Agora a garotinha poderá realizar o seu sonho de se transformar numa bruxa. Além dela o mago também possui algumas aprendizes: Agathe, devotada em melhorar suas habilidades e seu poder, não aceita muito bem a chegada de Coco, a trata com desprezo e até com um pouco de crueldade. Teteia por outro lado é simpática, delicada, alegre e bem extrovertida, ela se encanta com a nova companheira e sua história. Finalizando temos Richie que é mais melancólica, pessimista, teimosa e muito solitária, sendo indiferente a Coco.

Além das três garotas e do genérico professor sempre solicito, preocupado, meio avoado e que esconde um segredo, há também Olruggio uma espécie de parceiro e supervisor de Qifrey, um pouco rude no início, mas que para seguir a cartilha dos mangás mostrasse muito bondoso, fiel e preocupado em proteger todos sobre sua tutela. Coco é colocada nesse mundo de fantasia sem nenhum conhecimento, como de praxe é ela que aos poucos vai conhecendo e nos apresentando esse incrível universo e suas peculiaridades.

Esse grupo de feiticeiros é conhecido como os Chapéu de Aba, possuem toda uma sociedade e segredos que não podem ser compartilhados com as pessoas normais, eles buscam a convivência pacífica através da realização de pequenas tarefas, alguns consertos, obras de melhoria nas cidades, ajudam nas celebrações de eventos festivos e no caso de desastres. Há uma clara proibição em se usar os feitiços para grandes feitos, enriquecimentos ou uso bélico, esse é maior receio do grupo, o uso dessa sabedoria de forma armamentista. Todavia, há um grupo de vilões bruxos que está atrás de nossa heroína e que possui uma forte relação com o passado do professor das garotas.

O roteiro é bastante seguro tenta aos poucos desenvolver a personalidade de cada um dos personagens trazendo algum tipo de explicação para seus comportamentos, contudo não há um momento tão grande de tensão ou urgência, ele é bem construído e segue uma linha agradável que diverte e mantém o público interessado, embora logo de início já tente deixar claro que Coco não é como os demais atores dessa história, ela é um prodígio sendo capaz de resolver situações que magos experientes teriam dificuldades, logo no volume inicial ela enfrenta um desafio de vida ou morte sozinha.

Enquanto o roteiro segue as premissas básicas de um mangá, o diferencial está na fantástica arte de Kamome Shirahama a autora mostra que o processo de criação e a execução de um feitiço é como a elaboração de uma obra de arte, não quero explicar mais detalhadamente para não dar spoilers. Seu traço é sútil, leve e fino cada quadro é trabalhado com um enorme esmero, há uma grande preocupação e atenção aos detalhes, não há excessos, é muito fácil captar tudo o que é desenhado: os ambientes, os detalhes de figurino, as criaturas fantásticas, as magias, as expressões faciais, enfim tudo é muito bem definido.

Ainda há o incrível uso de luz e sombra, a mangaká tem o domínio do nanquim como poucos, ele simplesmente transborda nas páginas quando a autora desenha as referidas magias, as transições de quadro e as elipses temporais são simples, detalhadas, encantadoras e bem elaboradas. A arte consegue definir tudo muito bem, os seus personagens são lindamente ilustrados sendo apresentados num ritmo cadenciado que nos dá tempo para nos acostumarmos com sua fisionomia. Seus quadros são variado apresentando novos ângulos, com muita atenção na movimentação e um bom domínio gestual, é uma arte exuberante e que vai enfeitiçar a todos.

Esse é sem sombra de dúvida um dos mangás mais divertidos que tive o prazer de ler em muito tempo, não é cheio de batalhas ou aventuras, mostra seres humanos que possuem questões pessoais, que podem ser mesquinhas e errar. É uma obra interessante, com um bom roteiro e uma arte espetacular sendo acessível a todos os púbicos, não é confusa e nem apressada é uma bela e encantadora história.   

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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