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No Século Passado: Astro City – Em Sonhos

Astro City – Em Sonhos

Esta história foi publicada no século passado, então, sim, tem spoiler.

“Não posso salvar todo mundo. Há gente morrendo no mesmo instante em que salvo vidas aqui, mas ainda posso fazer o que posso. Não posso? ”.

Você já imaginou como seria ter os poderes do Super-Homem?

Que tal apenas o poder de voar livre como um pássaro, acima das nuvens e de todos os problemas; seria magnífico, não seria?

Em 1995, um ano após ter escrito “Marvels”, minissérie em quatro edições com ilustrações fantásticas de Alex Ross, Kurt Busiek lançou o primeiro número de Astro City, com a história “Em Sonhos”, onde ele apresentava “O Samaritano”, uma releitura do Super-Homem, e de como seria a vida de um ser com tamanho poder e ao mesmo tempo tão benevolente e responsável.

Não se trata de uma visão realista do personagem, o próprio Busiek já deixa claro na introdução para o Encadernado “Vida na Cidade Grande”, contendo as edições 1 a 6 de Astro City. Ao contrário de Alan Moore, que tentou dissecar os heróis em seu Watchmen, e compreender que tipo de mudanças ocorreriam caso alguém como Dr. Manhattan existisse, o autor gosta do irrealismo presente nas histórias em quadrinhos.

Sua pretensão em Astro City é seguir o mesmo caminho de Marvels, ver o que mais há para se contar, o que acontece com as pessoas comuns em um mundo onde heróis e vilões fazem parte da rotina diária, ou com os próprios super-heróis quando não estão usando o uniforme colante e a capa.

Veja o Super-Homem, por exemplo, criado por fazendeiros com valores morais rígidos, aprendeu o valor da vida e a importância de protege-la. Seus poderes permitem que ele salve, desde uma única vítima em um assalto corriqueiro, até centenas ou milhares prestes a serem atingidas por uma catástrofe natural.

Com sua supervelocidade, ele pode transpor enormes distâncias em questão de segundos, e em um piscar de olhos, atravessar o país. Junte tudo isso com sua bondade e sendo de dever, e o Samaritano de Busiek, fará todo sentido.

O primeiro número de Astro City começa com o Samaritano sonhando, e no sonho, ele está voando despreocupado.

Ao acordar, vemos que a realidade é completamente diferente: “a luz me golpeia os olhos, e me sinto velho e pesado, mas isso não pode me afetar. O padrão de pulsos da transmissão indica as Filipinas. É algum desastre climático, talvez mais um tufão. Normalmente voar à Manila é muito agradável, mas não hoje. Não há tempo. Nunca há tempo”.

Eis aqui o ponto central da história, mesmo com poderes que o colocam muito acima dos meros mortais, o Samaritano é incapaz de perder um único segundo com si próprio, sem que se sinta terrivelmente culpado, pois cada instante que desperdiça pode custar inúmeras vidas.

Há um momento em que ele desacelera sua supervelocidade por apenas dois segundos, unicamente para que uma garotinha possa vê-lo resgatando seu gatinho e perceba que tudo está bem. Logo depois o Samaritano se repreende, os dois segundos quase custaram a vida de um homem em Boston.

Entre seu disfarce como o repórter Asa Martin, sua participação na Guarda de Honra (o equivalente à Liga da Justiça em Astro City), a ajuda às instituições e o confronto com supervilões, o dia termina.

Se Clark Kent tem tempo para o romance com Lois Lane, o Samaritano lamenta não poder se relacionar com alguma das inúmeras mulheres que dariam tudo para ficar com ele.

O homem mais poderoso do mundo é também o homem mais ocupado e o que carrega o maior fardo.

Logo, embora sempre esteja voando, jamais aprecia o que está fazendo, o único momento em que isso ocorre, é quando dorme, sonha, e no sonho, voa.

Assim como outras histórias de Astro City, “Em Sonhos” não tem ambição de ser algo monumental, mas de mostrar uma visão diferente de um herói com o qual já estávamos familiarizados.

É um feijão com arroz muito bem temperado, daquele que dá vontade de repetir o prato. Se puder, visite Astro City, você não vai se arrepender.

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