Quando éramos reis

As crônicas do ódio de PETER BAGGE

Da turma de 1990, Love & Rockets foi a melhor e as Tartarugas Ninja foram o maior sucesso comercial, mas o que vai ser lembrado por melhor retratar sua época é Ódio, de Peter Bagge, publicado entre 1990 e 1998 pela Fantagraphics, a mesma editora que tirou do anonimato os irmãos Hernandez e Daniel Clowes.

Segundo Bagge, o personagem principal de Ódio, Bud Bradley, é um alter ego seu com dez anos a menos. Bagge já tinha passado dos 30 e sua esposa esperava um filho quando mudou-se de New Jersey para Seattle, imediatamente antes da explosão do grunge atrair os olhos para lá. Porém, no gibi, ecoa sua fase anterior de vida típica de solteiro, adiando compromissos de adulto (como emprego fixo e uma relação estável), um pouco por preguiça, um pouco pela falta de oportunidades da recessão da época. Sem saber, estava caracterizando com perfeição o que ficou conhecido como “slackers” (teve até um filme com esse título), o que Douglas Coupland chamou de geração X.

O brilho autoral que motiva reedições em capa dura de Ódio ao invés das notas de rodapé que seus contemporâneos Beavis e Butthead recebem vem do talento para a sátira, que não poupa os personagens principais do ridículo, mesmo que lhes demonstre compaixão. Peter Bagge vem daquele ambiente “redneck” e sabe que por mais ódio que aquele estilo de vida provoque, aquelas pessoas são, no fundo, seus amigos; no mínimo, gente ao redor de quem cresceu. Suas histórias são pesadamente orientadas por diálogos (como as de Kyle Baker) com dois balões em quase todos os quadros. De certa maneira, ele subverte a indicação de evitar excesso de “cabeças falantes” e desenvolve os roteiros na base da comunicação, ou seria mais preciso dizer nos percalços de comunicação entre duas pessoas.

A imagem de páginas e mais páginas monótonas, divididas em nove quadros, de cabecinhas pouco fazendo enquanto conversam (um motivo comum é Buddy ao telefone, falando na mesma posição em todos os quadros) pode soar pouco atraente, mas de alguma forma Peter Bagge tem a manha para deixar aquilo interessante. E como. A identificação dos leitores, na coluna de cartas, foi avassaladora. Todo mundo parecia conhecer um Bud, uma Liza, um Stinky. Claramente ele atingira o nervo exposto de uma geração.

Boa parte disso se deve a sua crítica de costumes excepcional: Bud é sistematicamente zoado por preferir uma “bitter” artesanal de uma microcervejaria local ao invés das “pilsen” massificadas. O feminismo da namorada de classe média alta entra em atrito com sua sensibilidade “redneck”. Também é excelente na criação de situações hilariantes, por si só, que sobreviveriam num filme ou numa peça: Bud leva sua namorada para trabalhar no sebo de onde ele desviava livros, em seu expediente, jogando pela janela, e ela escolhe logo um atlas gigante e pesadíssimo para arremessar.

Sob o risco de afastar leitores (que não teriam amadurecido em tempo correspondente), Peter Bagge opta por envelhecer seus personagens, a história paradoxalmente fica mais densa, mais pesada justamente quando o gibi passa a ser impresso em cores vibrantes. Parente morrem, namorados se afastam, sócios brigam e a misantropia de Bud parece empurrá-lo para que ele vire um ermitão. Protestos começam a chegar nas cartas.

Ódio morreu no número 30, ferido de morte por meses perdidos tentando transformá-la em série animada para a MTV. Ao mesmo tempo, é de se questionar como os leitores teriam reagido a um Bud trintão e mais maduro. Outro problema era que, apesar do humor de situação, o roteiro se mantinha firme no realismo e, assim, não consegue escapar da conclusão que os “slackers” que tanto se esforçavam para evitar ter empregos inevitavelmente acabariam se aproximando do crime e acabando muito mal. O gibi acabaria por falta de personagens, ou mais provavelmente toda uma trupe nova teria que ser introduzida. Ou seja, parou na hora certa, cunhando um clássico, sem saber. Envelheceu muito bem.

Ódio foi publicado em álbum pela Via Lettera, compilando as 5 primeiras edições. É uma excelente oportunidade para conhecer os personagens e suas motivações principais, mesmo que a tradução perca um pouco sem a graça das expressões originais do coloquial.


Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Botão Voltar ao topo