Quando éramos reis

American Splendor, as desventuras mundanas de Harvey Pekar

Não se pode creditar a invenção do gênero autobiográfico nos quadrinhos a Harvey Pekar, mas ele precisa ser lembrado em qualquer artigo sobre o gênero. Seu gibi, American Splendor, foi publicado entre 1976 e 2008.

Harvey falhou em ficar mais conhecido como o convidado criador de caso no programa de entrevistas do David Letterman, entre 1986 e 1994, o que só conseguiu após o filme American Splendor, de 2003, cujo roteiro é quase uma seleção dos melhores roteiros dos quadrinhos, costurados e adaptados para o telão. Antes disso, Harvey já era uma referência entre os quadrinhos auto-publicados, bancando o pagamento dos desenhistas e da impressão com seu salário de arquivista num hospital de veteranos de guerra. Ajudou bastante ter esbarrado e feito amizade com um Robert Crumb antes da fama. Crumb gostou da ideia e se dispôs a desenhar colocar sua tinta a serviço dos primeiros roteiros. Daí em diante, a revista engrenou. Ou quase.

Demorou pelo menos até a década de 90 para o público mais amplo se interessar pela vida retratada em American Splendor. E Harvey nunca ajudou, levando uma vida chata por escolha própria: em parte, turronice e compulsão obsessiva por livros e discos; em parte, por morar toda a vida na mediana Cleveland, exatamente quando a cidade experimentava grande decadência econômica e social. Quando o leitor se dá conta que Harvey Pekar demorava um ano (American Splendor teve periodicidade anual em 20 dos 32 anos em que foi publicada) para preencher 60 páginas de histórias onde não acontecia muita coisa, é que tem noção que era a vida do sujeito.

Nos melhores momentos de American Splendor, o leitor é brindado com recortes do cotidiano que tem o tom de contos da tradição zen, no caso, um zen da classe trabalhadora norte-americano, herdeiro de Mark Twain. Se fosse brasileiro, poderia ser uma crônica num livro de João Antônio; ou poderia estar entre as histórias sobre nada de Larry David para Seinfeld.

Harvey percebeu, assim como os irmãos Hernandez, ao ler Crumb, que a linguagem dos quadrinhos permitia latitudes bem maiores do que as aventuras de super-heróis, e se posicionou como o anti-super-herói, aquele para quem nada de extraordinário acontece. Assim, acompanhamos pequenos recortes de sua rotina de trabalho no hospital, conversas com amigos, como ele conheceu sua terceira esposa Joyce, e assim por diante. Mas esteja o leitor desde já avisado que esse nem sempre o zen prevalece e muita história que vai soar vazia, sem o olhar do cronistas que dá cor ao banal. É chato, e é para ser chato mesmo.

Na década de 90, tanto porque precisou produzir mais páginas para complementar sua aposentadoria, quanto porque ficou mais conhecido, Harvey começou a produzir mais páginas e isso comprometeu a qualidade pela repetição e pela sobrecarga de texto em relação a imagens, algumas vezes até redundantes para a narrativa, em mau uso da linguagem dos quadrinhos. Publica mini-ensaios sobre música em quadrinhos, desenhados pelo ainda não famoso Joe Sacco nessa época, já editado no selo Dark Horse, com quem ficaria no século seguinte. Seus roteiros são desenhados por artistas improváveis: Richard Corben, Glenn Fabry, Rick Geary, David Lapham, Darwyn Cooke.

Nesse ponto, a autobiografia tinha se tornado um gênero ubíquo, de Maus a Adrian Tomine, Eddie Campbell e Alison Bechdel. Todos, todos sem exceção, têm uma dívida impagável com Harvey Pekar.

Rafael Lima

Rafael Lima escreveu nas revistas eletrônicas Sobrecarga, Falaê, Burburinho e Digestivo Cultural; hoje, prefere desenhar. Ainda hoje, tem uma ligação afetiva com os quadrinhos independentes das décadas de 80 e 90, os quais mantiveram seu interesse em continuar lendo. Morou vários anos fora e, hoje, acha engraçado quando se usa o termo "importado" para referir ao quadrinho não nacional. Não tem gatos nem cachorros.

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