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A Voz do Silêncio:Quando sua voz é calada

A editora New Pop acaba de relançar o primeiro de quatro encadernados da série A Voz do Silêncio, Koe no Katachi no original, que é escrita e ilustrada por Yoshitoki Ōima, lançada primeiramente em 2011 como one-shot acabou sendo serializada a partir de 2013 pela revista Weekly Shōnen Magazine, compilada em 7 volumes, já publicados pela New Pop entre 2017 e 2018.

A história gira em torno do estudante primário Shōya Ishida, um jovem que gosta de  videogames, pregar peças em seus amigos e se divertir, ou seja, um garoto normal e aparentemente sem problemas até a chegada de outra aluna, a garota surda Shōko Nishimiya que acaba de ser transferida.

Essa mangá é muito potente por lidar de um tema atual e que aflige não apenas o Japão, mas o mundo inteiro, o bullying. Na trama vemos as consequências tanto ao agressor como ao agredido. É um relato sobre deficiência, preconceito, amizade e crescimento.

O jovem Ishida está entediado, cansado dos mesmos mangás e jogos, acaba criando com seus amigos uma série de desafios de coragem, como pular de pontes altas e até arranjar brigas com garotos mais velhos, seu desconforto só vai aumentando pela falta de sentido na vida, além de uma conexão real com os outros ou quem sabe de uma repressão maior de sua mãe, que apesar de desaprovar seus atos não se posiciona de forma rígida ou autoritária. A falta de controle da figura materna é tamanha que sua filha, irmã de Shōya, literalmente aparece com um namorado novo por semana.

O tédio que envolve Ishida aumenta ainda mais ao perder suas companhias de brincadeiras seja para os estudos ou para o medo, o rapaz passa se sentir ainda mais desconectado com tudo e todos e é nesse ponto de descontentamento extremo que chega Shōko Nishimiya, ao ver ela se apresentando com um caderno com os dizeres sou surda é mostrada de forma hábil pela autora que ambos fazem parte de planetas diferentes, tanto que o rapaz solta em alto tom que garota estranha.

Aos poucos esse ser alienígena começa a abduzir a rotina da sala de aula, as meninas tentam no início ser solicitas a ajudando nas tarefas da classe, nas leituras e em tudo. Todavia Nishimiya necessita de ajuda constante, a escola não e nem os alunos estão preparados para esses cuidados. Ninguém gostava do tempo que ela levava para dar respostas escritas para perguntas ou o fato dela participar da sala de canto e não ter ritmo ou da sugestão de aprender, em aulas extras, a linguagem de sinais, a desaprovação não veio apenas por parte dos alunos, mas também do professor.

Ishida prontamente testa sua surdez gritando em seus ouvidos, começa a imitá-la recebendo os sorrisos dos outros, em vez de uma postura mais assertiva o professor passa um pequeno sermão o que acaba por validar as agressões. Aos poucos o bullying aumenta com destruição de cadernos, comentários humilhantes, agressões físicas e até a inutilização de diversos dispositivos auditivos, fato que muda a trama.

A mãe da garota reclama com a diretoria sobre os aparelhos, solicitando o reembolso do alto valor que eles custam, com a exigência de um culpado pelo diretor o próprio professor se prontifica em arranjar um culpado, claro Ishida, que ao se defender é ainda mais atacado sendo  de forma unânime considerado o único agressor, mesmo que seus amigos rissem das piadas e não fizessem nada para ajudar a menina, dessa vez o jovem é abandonado pelos demais, vira o alvo dos abusos.

Essa mangá é excepcional por apresentar um modo de ver sobre o bullying,  o agressor muitas vezes não o faz por achar que está prejudicando alguém e sim para diminuir um desconforto interno e alcançar aprovação de outros, no caso de Shōya ele sentia um tédio, uma enorme falta que não conseguia nomear, uma sensação desconfortável que só aumentava diante uma garota que não importava com a humilhação e abusos sofria, ela ainda desejava fazer amigos, ser de alguma forma ouvida.

A obra inicia seis anos no futuro com um garoto já crescido que ainda carrega as marcas do que fez, após ter sido isolado e alvo de ataques por seus colegas ele cresce sem nenhum interesse em nada, sem amor-próprio e sem nenhum amigo, na verdade ele desenvolve uma “cegueira existencial” sendo incapaz de ver e ouvir quem está ao seu redor, todos os rostos de seus colegas de classe são marcados com um enorme X como se não existissem, ele não consegue mais estabelecer relações com os outros.

Em busca, mais de para si do que para Nishimiya, ele a busca para se desculpar pelos atos que praticou, tenta de alguma forma conhecer e entender seus pensamentos, enfim escutar a voz abafada. A garota primeiramente foge, mas acaba se reconciliando com seu agressor, começa a compartilhar seu mundo com alguém além de seus familiares é capaz de falar com ela, aos poucos eles se conectam e o mundo deles começa a se abrir.

A arte desse mangá é muito bonita e singela, os personagens possuem muita diferenciação entre eles, não é uma arte genérica em que todos parecem iguais, cada um tem seu tamanho, físico e cabeleira única, ou seja, é fácil distinguir um personagem de outro. Ademais o traço é bem simples e leve, muito limpo e claro, sem grandes sombreados e com uma boa colocação de retículas para dar mais profundidade, as expressões faciais são perfeitas, assim como a linguagem de sinais, um dos detalhes mais legais é o fato de que com apenas dois riscos temos um nariz.

A obra é muito bonita, tanto que até ganhou em 2016 uma versão em longa animado felizmente está disponível para os brasileiros através do serviço de streaming Netflix, tanto o mangá quanto o anime são excelentes, vale a apena ler essa obra que lida não apenas com o bullying, mas com deficiência auditiva, preconceito, crescimento e respeito, uma trabalho lindo e indispensável.

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

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