Quer mais este assunto nerd? Nos visite diariamente.

A sexualidade dos super-heróis

Ilustre fã de quadrinhos, aproveitando que estamos no mês do Orgulho LGBT, nada mais apropriado do que falar sobre a sexualidade dos super-heróis. Ainda mais porque esse assunto continua sendo tabu para muitos leitores. Por acaso, você tem ideia de quando esse tema começou a ser discutido? Alemão radicado nos Estados Unidos, Fredric Wertham (1895-1981) era um psiquiatra renomado. Além de corresponder-se com Sigmund Freud, o pai da psicanalise, era autor de livros sobre a mente humana. Contudo, tinha um grave defeito: achava que as histórias em quadrinhos eram prejudiciais as crianças, principalmente devido à violência que elas retratavam e favoreciam a delinquência juvenil. Para corroborar sua tese, publicou, em 1954, o livro Seduction of the Innocent (A sedução dos Inocentes). Talvez você não tenha ouvido falar dessa obra, mas com certeza conhece uma das teses que ele defende: Batman e Robin são um casal gay. Para chegar a essa conclusão, Wertham analisou as revistas do herói e percebeu algumas coisas estranhas. Na Mansão Wayne, Bruce Wayne e Dick Grayson (o primeiro Robin) eram mostrados em roupões de banho. Os ambientes eram repletos de vasos de flores. E, acredite se quiser, mesmo com a infinidade de aposentos que deviam existir na mansão, os dois dormiam no mesmo quarto. Suas camas eram tão próximas que davam a impressão de ser uma cama de casal. Quando apareciam mulheres bonitas nas histórias, geralmente eram vilãs. Em muitas de suas histórias, Batman e Robin salvavam a si mesmos e era como se a presença feminina não fosse necessária. Mas é importante ressaltar que vários personagens das HQs foram vítimas desse ataque. Inclusive a Mulher-Maravilha, que para o autor do livro era lésbica. Você faz ideia do impacto que esse livro causou? É preciso lembrar que a Guerra Fria estava a todo vapor e os norte-americanos viam comunistas por toda parte. O próprio Charles Chaplin foi perseguido pelo governo e teve de se exilar na Suíça. Quando os Estados Unidos perceberam que os antes inocentes gibis eram, na verdade, contra a moral e os bons costumes, as publicações passaram a ser perseguidas e muitas vezes a própria população as queimava em praça pública. Para evitar um prejuízo ainda maior, as editoras se reuniram e criaram, em 1954, mesmo ano da publicação do famigerado livro, o Comic Code Authority, ou seja, um código de ética pelo qual as editoras se auto-regulamentavam. Para conter o clamor popular, dentre outras medidas, esse código determinava que as histórias não podiam conter nudez, violência e assassinatos. Ou seja, nossos queridos heróis, que costumavam matar seus inimigos, tiveram de rever essa conduta. Percebeu de onde vem a história de que os heróis não matam? Com o tempo, as editoras foram deixando esse código de lado. Tanto que, em 1979, Chris Claremont e John Byrne criaram o Estrela Polar. Esse mutante da Marvel era, a princípio, membro da Tropa Alfa. Ele possui velocidade e reflexos sobre humanos, além de voar. Entretanto, sua principal característica é que foi criado como um personagem gay. Como a Marvel eram contra essa postura, os roteiristas do personagem davam dicas de qual seria a identidade sexual do personagem. Em 1992, contudo, o personagem saiu do armário. Em 2012, a argumentista Marjorie Liu casou o personagem, então membro dos X-men, com o humano Kyle Jinadu. Pode-se dizer que o Estrela Polar foi responsável pelo surgimento de outros personagens LGBTs. Alguns deles são: .Constantine: criado por Allan Moore, Stephen Bissete e John Totleben em 1985, o mago inglês John Constantine surgiu nas páginas da revista do Monstro do Pântano. Ele é assumidamente bissexual . Deadpool: o mercenário tagarela foi criado por Rob Liefield e Fabian Nicieza e apareceu pela primeira vez em 1991 na revista dos Novos Mutantes. Deadpool é pansexual, ou seja, sente-se atraído por pessoas de qualquer gênero e sexualidade. Batwoman: a nova encarnação da Batwoman foi criada por Geoff Johns, Grant Morrison, Greg Rucka, Mark Waid e Keith Giffen. A personagem apareceu pela primeira na revista americana 52, número 11 em setembro de 2006. Nessa nova roupagem, a personagem é lésbica. Com o tempo, as editoras foram percebendo a importância da representatividade e perceberam que seus personagens não eram acompanhados apenas por heterossexuais. Com isso, até mesmo personagens consagrados tiveram sua sexualidade alterada. Talvez você não saiba, mas a Mulher-Gato, aquela mesma que recentemente casou com o Batman, tornou-se bissexual. Isso aconteceu em 2015 e a roteirista responsável por essa mudança, Genevieve Valentine, afirmou que sempre viu a personagem como sendo bissexual. Bob Drake, mais conhecido como o Homem de Gelo dos X-men, que já foi apaixonado pela Kitty Pride, saiu do armário. Isso aconteceu na edição americana “Uncanny X-men” número 600, pelas mãos do cultuado argumentista Brian Michael Bendis em 2015. O caso mais emblemático, contudo, foi o da Mulher-Maravilha, a principal heroína da DC e uma das fundadoras da Liga da Justiça. Sua primeira aparição ocorreu na revista All Star Comics 9, de 1941 e foi criada pelo psicólogo William Moulton Marston, o mesmo que criou o detector de mentiras. Em sua origem clássica, Hipólita, líder das amazonas na Ilha Themyscera, desejava muito ter uma filha. Entretando, como na ilha não havia homens, esculpiu uma boneca de barro e a deusa Afrodite fez com que ela criasse vida. Claro que nosso amigo Fredric Wertham pensou o seguinte: se a Mulher-Maravilha foi criada em uma ilha em que só existiam mulheres, ela é lésbica. Não é à toa que esse argumento está presente em seu livro The Seduction of the Innocent. Na fase Renascimento, da DC, o argumentista da Mulher-Maravilha, Greg Rucka, foi categórico ao afirmar que a personagem é bissexual. Segundo ele, tendo em vista que a personagem cresceu e se desenvolveu numa ilha onde só existiam mulheres, é óbvio que ela já esteve apaixonada e que manteve relações com elas. Segundo ele, nem se pode afirmar que as amazonas eram lésbicas, pois não havia homens em Themyscera. Portanto, relacionar-se com mulheres era algo natural, a única alternativa. Como foi dito, a representatividade nos quadrinhos é importante. Super-Heróis LGBTs continuarão a surgir, enquanto que personagens consagrados seguirão saindo do armário. Qual sua opinião sobre esse assunto, ilustre fã de quadrinhos? André Costa é professor de Inglês, escritor, fã de cultura pop em geral, especialmente de histórias em quadrinhos de super-heróis.

você pode gostar também