Leituras do Sumpa

A origem secreta do Falcão (ou o dia que o Caveira Vermelha puniu um negro por namorar uma mulher branca)

Você gosta do Falcão?

Sabia que ele já foi um vilão?

Hoje em dia, ninguém questiona a honra e as características de Sam Wilson, mas lá nos anos 70, isso foi questionado.

Se você começou a ler a Marvel pela Bloch, essa história é parte do arco de histórias apresentado em Capitão América # 13, agora, se você começou a ler pela Editora Abril, Captain America #186. Escrito por Steve Englehart e desenhado por Frank Robbins passou batido porque a editora pulou quase 50 edições do capitão.

O que essa história tem de especial?

Tudo e nada ao mesmo tempo.

Ela é parte de uma saga do Caveira Vermelha que vinha sendo desenvolvida por Englehart dentro do arco do Nômade.

Não sei se você sabe ou lembra, mas após a Saga do Rocha Lunar, onde ele descobriu que um dos cabeças do Império Secreto e da Petróleo Roxxon era um dos homens mais influentes da América, nosso herói resolveu pirar o cabeçote e virar Hippie.

Como estamos falando de um personagem com base conservadora, ele até deu sua ciganada, mas pra não ficar feio, preferiu ser um Nômade, deixando um vácuo ideológico que precisou ser preenchido e três homens tentaram substituir o bandeiroso.

E é aí que entra o Caveira Vermelha, o nacional socialista supremo das HQs.

Após matar Roscoe Simons, um dos substitutos do Capitão, o Caveira decide anunciar que matará alguns patriotas específicos. Qualquer semelhança com aquele arco dos peixes do Coringa não é mera coincidência, afinal, é o mesmo roteirista.

Quer uma dica? A história do Batman é melhor que essa.

A base é a mesma: o principal inimigo do herói retorna ainda mais cruel e assassino, o que obriga o protagonista a lidar com as consequências desse retorno.

Por mais que seja uma história ruim e tenha aqueles draminhas de amor platônico, triângulo (quadrilátero) amoroso e todas as bobagens que compunham o título na época, a crítica social não perde a força.

A história apresenta diversos tipos de preconceito e questiona as motivações de alguns personagens. Temos o veterano do Vietnã que virou pacifista, a importância da mulher na segunda onda do feminismo, o lugar de fala de uma mulher de 40 anos (que na época, só podia ser avó), o que um negro podia ou não após a caminhada de Selma e dos questionamentos de Malcolm X…

Era a Marvel, eram os anos 70, os editores deixavam a coisa correr solto desde que não desse problemas e as questões eram pertinentes com o momento em que eram apresentadas.

Não sei se você sabe, mas muitas dessas histórias só foram possíveis porque os editores faziam vista grossa. Eles estavam tão ocupados que não conseguiam acompanhar tudo que era produzido.

Quando os editores começaram a editar os títulos dois anos depois, a Casa voltou a ter ideias mais caretinhas.

Mas o roteirista, que queria usar o meio que tinha para passar sua mensagem sobre aceitação, usou o Caveira Vermelha como a voz do preconceito da sociedade dos anos 70. Romances inter-raciais incomodavam e Peggy Carter, que finalmente assumiu ser uma senhora de 40 anos se deitar com gabe Jones, o agente negro da S.H.I.E.L.D., era visto como algo nojento.

Segundo o Caveira, Gabe precisava ser punido porque estava deixando a mulher branca impura.

Na boa? Essa é a sequência que vale a história e ela acaba ofuscando a grande revelação sobre o Falcão.

Ah, o Falcão…

Bem, é aqui que a Jeripoca pia.

Essa edição revela que todo o senso de bondade, justiça, honra e lealdade de Sam Wilson foram… criados pelo Caveira Vermelha.

Segundo o vilão Nacional-Socialista, durante uma fase nos anos 1960 em que ele trocou de corpo com o Capitão usando o Cubo Cósmico (Tesseract pros Millenials) e foi parar numa ilha esquecida, ele encontrou Snap Wilson , uma mistura bandidinho de quinta com cafetão

Snap veio pro Rio de Janeiro virar um dos Bandidos da Falange, mas seu avião caiu na ilha de Lost.

Não, pera…

Usando o Cubo Cósmico, ele mudou toda a personalidade do rapaz pra que na hora que ele mostrasse o passarinho pro Steve Rogers, algo crescesse entre os dois. E não é que cresceu mesmo?

Rogers viu a habilidade do agora Sam Wilson com Falcões e resolveu usar contra seu inimigo Nacional-Socialista, que se fez de morto e fingiu perder a luta para usar esse supertrunfo num momento mais propício.

Assim, não só a amizade como seis anos do título foram construídos sob mentiras.

Até que não foi um Retcon ruim, mas… não foi bem desenvolvido Acabaram apagando anos depois, mas foi a semente que acabou gerando o conceito do Capitão América da saga Império Secreto.

E tem o desenho do Frank Robbins…

Sabe o que também estava acontecendo em 1975? Os Vingadores do George Perez e o Punho de Ferro de Claremont e Byrne. E eles realmente acharam que alguém ia achar um cara com traço dos anos 40 interessante.

Jura?

Como história?

Provavelmente Steve Englehart ouviu muito Bob Dylan na hora que escreveu esse run. Ele levantou uma série de questionamentos pertinentes para a época, fazendo com que sua passagem pelo capitão América mereça ser revisitada mesmo 46 anos após a conclusão.

O problema é que Steve Englehart é um roteirista errático. Acerta aqui, erra miseravelmente ali e se perde no meio de boas ideias ou abusa dos clichês.

Pode até ser culpa do horário que ele escolhe pra escrever.

Se você só escreve as 4h20 e não é o Robert Crumb, fica difícil, né?

O que é ruim? Lá vou eu de novo…

A novelinha do Trisal entre Steve e as Meninas Carter, O exagero de torturar o Gabe Jones porque ele tava se escondendo no rosa oculto da Peggy Carter, os draminhas do Gabe e do Dave Cox, que tavam pegando as sobras do Steve e se ressentiam disso porque a todo momento acreditavam que as moças teriam uma recaída pelo vovô garoto musculoso…

Pra você ter uma ideia, a história do gabe Jones ofusca a revelação do Falcão e ele é um mero coadjuvante. Era pra ser algo incômodo, mas nada tanto assim.

O Caveira Vermelha dele é interessante e a ideia do controle mental e de ridicularizar o Falcão na frente do Capitão fazendo com que ele se comporte como um frango, colocar Sam (pela segunda vez em três anos) contra o Capitão nem é tão ruim assim.

Mas terminar a história fazendo com que O Falcão caia duro porque ainda está hipnotizado e devolver o personagem a uma quase normalidade em três páginas durante uma edição em que o Capitão luta contra um vilão de quinta…

Ah, claro…

Não dá pra colocar essa história do labirinto na conta do Englehart, foi escrita por um tal de John Warner. Kirby ia assumir o título na edição 193 e eles precisavam correr com as tramas.

Se bem que nem faz sentido porque o cara acabou escrevendo um Filler.

Pensado bem, a fase do Kirby teve o mesmo efeito no título que Heróis Renascem teria anos depois.

Talvez, com um pouco mais de tempo, as histórias tivessem ficado mais interessantes.

Na verdade, esse tipo de história nunca seria contado em 2021.

O que tornou o Caveira assustador não foram seus atos, mas sua ideologia. O personagem foi usado como o garoto-propaganda do nazismo, uma ideologia que supostamente odeia todo mundo que nem gente grande.

O curioso é que ao longo de toda a história, foi usado o termo Nacional-Socialismo, que é o nome real do movimento. Nazismo é só uma abreviação.

Não sei se você sabe, mas ele foi a base do PDT e foi plenamente defendido pelo Leonel Brizola. Se você é ou foi Brizolista em algum momento da vida, você foi nazista e não sabia. Fica a dica.

Racismo exagerado:

Creio que um dos motivos da Editora Abril ter saltado isso foi o exagero. Por mais que nos EUA, a KKK tenha o hábito de queimar negros, a idéia de ver um sendo torturado, ainda mais com acetilênio não desceria bem pros Brasileiros.

E a edição realmente gasta muito tempo mostrando o que certamente foi uma demonstração gratuita de violência.

Essa história era parte de seu momento e serviu como o embrião do que seria um vilão dos anos 80 e 90, uma abordagem séria de uma pauta extremamente atual, que como hoje em dia, as pessoas são de vidro vagabundo, ela nunca seria abordada dessa forma.

Os estereótipos dos anos 70 não existem mais, e como tal, não seriam compreendidos pela geração Z ou seriam combatidos pelos mais velhos que precisam ter pertinência e acham que o mundo é um gravador que repetirá todos os seus discursos no momento que o Play for apertado.

Dentro dessa lógica, o autor que é esquerdista, marxista (eu li a biografia dele) e que tentou escancarar os erros do mundo em que vivia, seria cancelado num mundo PG-13 onde o Felipe Neto e outros Budas modernos diriam: “Isso é errado”.

Dai pra chamar os bombeiros de Fahrenheit 451, são dois palitos. Ou basta a reclamação de uma escola Francesa, vai saber.

Você reparou que em 2021 temos poucos vilões negros porque a quantidade de personagens negros é tão pequena que o povo tem medo de estereotipar?

E foi essa culpa social que acabou invalidando todo o arco de superação do Falcão, que apesar de curto, foi válido porque acrescentou camadas a um personagem que só foi criado para deixar o título do Capitão América mais pertinente ao abordar temas contemporâneos.

Não sei se você sabe, mas existe uma história em que o Caveira Vermelha se disfarçou de líder do movimento negro e ostentou o símbolo do “Black Power” que não sei se você sabe, é o mesmo do fascismo.

Mas não vamos falar sobre isso em 2021, nem numa crítica de quadrinhos. Somos circo, não apenas palhaços.

Nossa função é entreter.

Alexandre D´Assumpção

Segundo o Guia do Mochileiro das Galáxias, Alexandre D’assumpção, ou The Sumpa, é praticamente inofensivo. Apesar de todas as lendas a seu respeito, ele é apenas um professor Nerd, redator, roteirista de quadrinhos e audiovisual que nos anos 80 pediu carona para uma cabine azul e desde então, tem vivido suas aventuras através do espaço/tempo. Para facilitar a viagem, tornou-se mestre Zen na arte de ter um rosto tão comum que todos sempre o cumprimentam imaginando se tratar de outra pessoa; normalmente ele mesmo. Dono de uma péssima memória, ele nunca se lembra de detalhes importantes como rostos, grupos que passou nem dos inimigos que ameaçam sua vida, o que é péssimo quando ele os encontra em becos escuros. Sua toalha é customizada e ostenta a máscara da Iniciativa Gambate, empresa criada por ele para levar a cultura Pop a todos aqueles que dela precisarem, estejam onde estiverem. De tempos em tempos ele reverte a polaridade de sua chave de fenda sônica e leva algum compannion para passeios transmídia, seja em eventos, festivais ou programas de TV. No caso de um avistamento, principalmente se The Sumpa for a personalidade dominante, espere o inesperado e corra para sobreviver.

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