Coluna F3

A Espera: as sequelas de uma separação forçada

O novo lançamento da editora Pipoca e Nanquim: 

A editora Pipoca e Nanquim acaba de publicar “A Espera”, nova obra da quadrinista sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, assim como em “Grama” o protagonismo é de uma mulher que sobreviveu aos horrores da guerra, uma pesada nuvem escura que as segue por décadas e provavelmente as acompanhará até sua morte. É de suma importância materiais que relatem toda a dor e o sofrimento que surge com os conflitos bélicos, uma forma de mostrar as futuras gerações o erro das anteriores.

A autora:

A autora é uma peça importante nessa HQ, ela começa a narrativa informando que terá de se mudar. Seu apartamento, ou melhor, seu prédio foi comprado por um novo proprietário que resolve aumentar o preço dos aluguéis, além disso o pagamento passaria a ser mensal, devido ao seu trabalho de escritora a autora não possui uma renda fixa o que a obriga a se realocar. O problema é que Gendry-Kim cuida de sua mãe, Song Gwija, essa mudança vai acabar criando uma enorme distância entre as duas. Como para dar O o próximo passo a autora investiga a vida de sua mãe, uma forma de homenageá-la e entendê-la.

Parece até estranho imaginar que as Coreias passaram por tantos problemas que continuam até hoje. No início do século XX o país foi dominado e colonizado pelo Japão, a língua coreana era proibida, nas escolas se ensinava o japonês e as pessoas possuíam nomes nipônicos. Durante a segunda guerra mundial o país foi palco de vários conflitos sangrentos. Soma-se a isso o fato de a população local ter sido escravizada e usada em trabalhos forçados ou explorados sexualmente. Fatos lindamente narrados em “Grama”.

Mas é diferente de Grama:

Dessa vez Gendry-Kim retrata uma parte de sua própria história ao ilustrar a vida de sua mãe, primeiramente ela contextualiza sua genitora. Dá ênfase aos seus problemas de saúde, a pinta como estando fragilizada, sem dentes, curvada, mancando, todavia também retrata a sua enorme força. Song Gwija é resoluta e tenta há décadas encontrar o seu filho, busca por informações diretamente com a Cruz Vermelha, mantém uma certeza de reencontro, “A Espera” que dá título à obra.

A narrativa volta ao passado após uma discussão de Song Gwija com uma amiga, sobre a possibilidade de reencontrar parentes perdidos. Foi uma criança chamando por um cachorro, com o mesmo nome do seu companheiro de infância, que a transporta no tempo, assim a narrativa volta para o ano de 1937. No norte da Coreia Song Gwija, ainda criança, brinca com seu cachorro e ajuda a mãe nos afazeres da casa. Ela inveja seus dois irmãos que além de poder estudar, podem, assim como o pai, comer as melhores porções.

Mais instrução:

Ela gostaria de ter mais instrução, de ter alguma formação, todavia como sendo mulher, ela faria parte da família de seu futuro marido, o ajudaria assim como seus sogros e teria muitos filhos. Ela tenta lutar contra o destino, mas a segunda guerra mundial eclode, levados a crer que os japoneses não sequestrariam mulheres casadas para serem usadas como escravas sexuais, se vê obrigada a casar às pressas, com um desconhecido, mas que foi um bom marido e pai.

Passam por anos de uma discreta alegria, eram uma família feliz, tinha um menino contente e saudável, era o centro da vida de Song Gwija, com o tempo veio uma bela bebezinha. Durante uma visita a casa de seus sogros a guerra da Coreia irrompe. Só descobrem o fato ao ver diversas famílias fugindo com o que tinham de valor. Assim, eles são obrigados a fazerem parte desse grupo de refugiados que seguiam rumo ao sul fugindo do conflito armado. Mesmo sendo uma caravana civil, foram atacados por aviões e pessoas armadas, era uma fuga descontrolada para sobreviver.

Um retrato assustador:

A autora faz um retrato assustador da separação que as famílias passaram após a guerra, mostra como um pequeno descuido é o suficiente para perder alguém para sempre. É um evento que afeta principalmente a população mais velha que teve de se separar à força de seus parentes, sem nem o direito de se despedir ou descobrir se ainda estavam vivos. Esse é um dos pontos mais importantes dessa história ela relata eventos reais, ainda que misture um pouco de ficção, o que está nas páginas parece ser bem possível, o que deixa a narrativa mais a assustadora.

Gendry-Kim escreve a HQ como um pedido de desculpas à sua mãe, não apenas pela separação, mas por não conseguir entender o desespero de uma mãe que perdeu seu filho primogênito, até então o centro de sua vida. Essa falta foi tão impactante que guiou Song Gwija pelo resto da sua vida. Ela nunca superou essa separação e a sensação de falha faz com que tente enquanto ainda está viva alcançar uma resposta, espera por um reencontro que fica cada dia mais impossível, visto que já se passaram mais de sete décadas.

O retrato de uma geração:

A obra é um importante retrato de uma geração que foi separada por anos e que nunca mais teve a possibilidade de se reencontrar, mostra como muitos ficaram presos nesses momentos, fixados nas telas da TV que mostravam alguns reencontros que eram permitidos como política de aproximação entre as duas Coreias.

Com suas potentes pinceladas a quadrinista consegue mostrar o desconforto da perda e a luta pela sobrevivência. Detalha um ambiente frio e hostil ao mesmo tempo amoroso e acolhedor da região norte. Passeia pela cidade moderna de Seul, entre seus becos, da mesma forma que nos leva de carona num trem de refugiados. O traço é meio simples, mas é suficientemente competente para transmitir de forma excepcional as sequelas da guerra. Na minha humilde opinião mais um petardo da Pipoca e Nanquim.    

Fernando Furtado

Fernando Furtado, formado em cinema pela FAAP, estudou quadrinhos na Quanta Academia de Artes, fez curso sobre a história das HQs com Sônia Bibe Lyuten, oficina de roteiro para HQs com Lourenço Mutarelli, assistente editorial e tradutor na Brainstore editora. Atualmente professor de inglês e advogado.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo