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A Dança da Morte (LA DANSARINA)

Lillo Parra e Jefferson Costa nos lembram de um passado que lembra muito nosso presente.

Um conto sore a época que a gripe espanhola assolou o mundo.

Lillo Parra e Jefferson Costa são os responsáveis por La Dansarina, umas das obras mais impactantes e humanas que reflete indiretamente os tempos atuais por se passar em época da pandemia da gripe espanhola do começo do século passado, a HQ foi produzida com auxílio dos fundos do PROAC, sendo republicada pela Jupati Books, um selo editorial da editora Marsupial.

Desde o prefácio há uma discussão sobre a vida e as adversidades que enfrentamos, o grande Marcelo de Campos (um dos desenhistas nacionais pioneiros no mercado americano, diretor e proprietário da Quanta academia de artes) cita Joseph Campbell que em seu livro o Poder do mito declara que a vida é uma dança e que podemos ou não participar dela, mas essa valsa ocorrerá gostando ou não.

É interessante ver que na obra são respeitados os dialetos do Brasil do começo do século XX, há inúmeros estrangeirismos permeando as páginas descendentes de italianos, de espanhóis, japoneses usam seu idioma pátrio com algumas adaptações regionais, enquanto as falas das populações locais denota seu passado com uma linguagem mais correta para retratar as pessoas estudadas e um tipo mais incorreto para as que não tiveram essa oportunidade, uma população sem uma língua predominante, com sons e tipos diferentes.

A pesquisa histórica é excepcional e feita com muito esmero, para quem vive na São Paulo de hoje ver uma região com tantas matas e bosques, com rios e açudes navegáveis parece irreal. Outro traço bem brasileiro é a colocação de seres do folclore nacional, espíritos que são reconhecidos pelos habitantes dessa metrópole ainda muito ruralizada.

O texto enérgico de Lillo é muito relevante sempre discutindo sobre o que seria a morte, um ser diabólico ou uma bela criatura que ama a todos, vindo para todas as coisas para conduzi-las para o lado de lá, sem nenhuma distinção de raça, credo ou bens materiais. A obra traz um diálogo sobre o que seria a vida, estamos aqui só de passagem ou por algum motivo mais relevante?

Vale destacar a arte de Jefferson Costa, sua paleta de cor é maravilhosa com cores vivas para mostrar os ambientes externos deixando claro todo o vigor e a força do sol, bem como tonalidades mais azuladas para retratar a noite, é tanto zelo que até as iluminações ambientes são perceptíveis as luzes das velas ilustram de forma clara e convincente os ambientes escuros. Isso sem falar nas cenas com a presença da morte, quando a companhia dessa força da natureza surge a fotografiafica esverdeada como se estivesse apodrecida.

A arte de Costa é maravilhosa, não só pelas cores, mas pela sua expressividade, na página em que o protagonista encontra a mãe morta é clara as sensações da criança, é de partir o coração, toda uma sequência sem fundo para dar ainda mais a sensação de solidão e dor do garoto. O traço de Jefferson é excelente dá muito dinamismo as cenas, quando há ação ela é clara e flui muito bem, ademais tem uma certa cara brasileira, lembra, em alguns momentos, um pouco da arte do Flávio Colin, mas é algo bem pessoal e que retrata de forma magistral os diversos tipos e cenários nacionais. Se fosse um artista de uma escola mais clássica a leitura seria desagradável e visceral, não a obra poética que alcança quando posta ao lado dos diálogos e intenções do escritor.

A história se inicia com a chegada de uma mulher aos portos de Salvador e conforme ela passa pelos estivadores, a peste ou melhor a espanhola a acompanha, são pequenas manchas negras, desse encontro a gripe começa a se espalhar pelas capitais do país.

A trama principal é protagonizada pelo garoto Petro, descendente de espanhóis que está adoecido e acamado, sendo cuidado por sua mãe que consegue um pouco de remédio, ela o usa para salvar sua prole e não a si mesma rezando e pedindo a proteção de seu santo padroeiro São Miguel Arcanjo. O conto do passado é interrompido e vemos Petro agora nos dias de hoje sendo atendido num pronto socorro lotado, novamente a paleta de cor esverdeada nos acompanha nesse lugar fúnebre, sobre os cuidados de um neto o velho senhor só deseja ir para casa e morrer onde se sente seguro.

A história volta ao passado com o garoto que se recuperou vendo o corpo de sua mãe morta, ele fica a velando por dias sem que nenhum profissional sanitário venha retirar o cadáver que está apodrecendo, começa aí a jornada desse herói mirim, cansado com o desrespeito que o corpo de sua mãe está sofrendo ele resolve atravessar a cidade até chegar a capela de São Miguel Arcanjo para enterrar sua mãe.

A jornada é hercúlea, muitos são os desafios desde o preconceito das populações vizinhas com alguém que morreu da gripe, até o descaso das demais pessoas, tem de enfrentar bandidagem e se encontrar com uma série de tipos bem brasileiros. O texto meticuloso que levou anos e muitos percalços para ser produzido (tudo relatado como extra no final do livro) aliado a uma arte dinâmica, fluida e caricata fazem uma bela leitura sobre o amor, a vida e relembram outros tempos que não são tão diferentes do que passamos hoje. Resumindo é um trabalho fenomenal tendo vencido merecidamente o 28° troféu HQ MIX como Melhor edição especial nacional, com Lillo Parra recebendo o troféu de melhor roteirista.

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